Há 15 anos, três amigos em duas singelas Suzuki Intruder saíram de Foz do Iguaçu (PR) com o objetivo de chegarem a Cuba, mas a estrada – e principlamente a ausência dela – cobroum um alto preço dos aventureiros. Essa história virou o livro “Expresso Havana” e aqui você acompanha a entrevista na íntegra que fizemos com seu autor.

Há 15 anos, Ary Neto e dois amigos partiram para uma viagem pela América Latina que tinha Cuba como destino e duas Suzuki Intruder 125 como companheiras de estrada. O que começou como uma aventura universitária rapidamente ganhou contornos inesperados: dificuldades mecânicas, problemas provocados pela altitude, decisões tomadas no improviso e uma dramática travessia pelo Darién acabaram transformando o roteiro original em uma experiência que Ary só conseguiu colocar no papel muitos anos depois.

Panama
Panamá

Em Expresso Havana, seu primeiro livro solo, ele recupera essa história sem esconder os percalços da jornada. Nesta entrevista à Revista Moto Adventure, Ary fala sobre as limitações das pequenas motos em uma viagem de tamanha dimensão, a experiência no Darién, o abandono das motocicletas e os acontecimentos que marcaram o grupo até a chegada a Cuba e o posterior retorno ao Brasil.

Boa leitura

Moto Adventure: No livro você fala que a viagem foi realizada há 15 anos. Por que só agora saiu o livro?

Ary Neto: Assim que retornei da viagem e me recuperei daquilo que ela me causou, comecei a estruturar a história, porque sentia que ela precisava ser escrita. Mas logo depois comecei uma empresa que engrenou, e todo o meu tempo foi dedicado ao trabalho. Só anos depois, quando essa empresa começou a degringolar e eu vi que não havia mais o que fazer, é que voltei minha atenção para esse projeto de escrita que estava engavetado, e aí uma nova aventura começou, sob o nome Expresso Havana.

As duas Suzuki Intruder "Pantera" e "Formiga"
As duas Suzuki Intruder “Pantera” e “Formiga”

Moto Adventure: Vocês eram três viajantes em duas motos pequenas (Suzuki Intruder 125). Vocês tinham ideia do que estavam fazendo? Qual era a experiência de vocês em grandes viagens de moto, principalmente com trechos de altitude e longas distâncias?

Ary Neto: Eu já tinha feito uma viagem de São Paulo até o Rio Grande do Norte numa Sundown Hunter 125cc, aquela marca de bicicletas. Na ocasião, viajei com um amigo na garupa, e a moto quebrou o eixo, depois o escapamento, depois a placa. A trepidação judiava dela. Pouco depois de cair em cima de uma tonelada de maracujá apodrecido que um caminhão tinha abandonado na pista, meu amigo decidiu desistir da viagem, e eu segui sozinho. Foi por causa dessa viagem que, mais tarde, Renan me propôs uma empreitada pela América Latina. Renan era de São Gonçalo e, assim como eu, não tinha a menor ideia sobre o que seria pilotar na altitude.

Lembrança de momentos descontraídos no Panamá
Lembrança de momentos descontraídos no Panamá

Moto Adventure: Falando em altitudes, as motos eram carburadas, certo? Como vocês lidam com este fator na ocasião, principalmente levando em consideração que as motos estavam carregadas e uma levava garupa?

Ary Neto: Sim, as motos eram carburadas e desempenharam muito mal na altitude. O Renan entendia um pouco mais de mecânica do que eu, então ele tirou os filtros de ar, e isso até melhorou um pouco. Mas ainda assim houve subidas em que não conseguíamos passar dos 15 km/h, e em alguns momentos o Evandro, que só ia na garupa porque não sabia pilotar, tinha que descer e fazer o trecho a pé

Colômbia
Colômbia

Moto Adventure: Talvez o maior problema, entretanto, tenha sido encarar o Estreito de Darién (Darien Gap). O que vocês sabiam a respeito desta região antes da viagem e por que decidiram tentar atravessá-lo, ao invés de optarem em ir por mar ou aéreo?

Início do trecho de selva, dentro do Estreito de Darién, na companhia dos índiso que os abandonariam depois
Início do trecho de selva, dentro do Estreito de Darién, na companhia dos índiso que os abandonariam depois

Ary Neto: A gente não sabia quase nada. Naquela época não existia esse boom de imigrantes passando por ali, e a presença das FARC, de paramilitares e de narcotraficantes na região já tinha acabado, ou pelo menos diminuído, naquela década. Mas o plano nunca foi passar por dentro da selva. A gente descartou a ideia de pegar um voo de carga de Bogotá para a capital do Panamá por causa do preço, então tentamos atravessar pela costa, numa embarcação indígena que ia parando em cada uma das ilhas habitadas pelo povo kuna para vender mercadorias. A gente demorava muito para avançar, e como tudo girava em torno do objetivo de chegar a Cuba a tempo de participar do congresso de educação, acabamos dando ouvidos a um indígena de uma das ilhas, que disse que poderia nos levar de canoa até o continente, e que dali poderíamos atravessar umas colinas de selva com as motos até alcançar novamente a Pan-Americana. Então deixamos a embarcação maior em que estávamos, para dormir na ilha e seguirmos de canoa para o Darién na manhã seguinte.

Moto Adventure: Como foi encarar este que é considerado um dos lugares mais terríveis de estar na Terra? Terreno pantanoso, mosquitos, isolamento, falta total de conforto… Como os dias foram se passando neste local e como foi a evolução da situação até decidirem abandonar as motos no local?

Aqui foi o último metro que os aventureiros tentaram conduzir as motos no Estreito de Darién
Aqui foi o último metro que os aventureiros tentaram conduzir as motos no Estreito de Darién

Ary Neto: O começo já foi bem louco, pois avançar com as motos era praticamente impossível. Conseguimos por alguns minutos, mas foi ficando mais denso, o céu sumiu, as raízes das árvores eram altas, o chão era barrento. A gente, de moto, ia mais devagar do que os dois indígenas que iam a pé. Chegamos a um primeiro riacho, arrastamos um tronco para servir de ponte e, depois de uma hora, conseguimos atravessar. Perguntamos ao indígena se haveria outros riachos como aquele para atravessar, e ele disse que sim, que haveria uma centena deles. Ali eu já sabia que não daria. Tentamos avançar mais um pouco, até que desistimos. Não dava mais para voltar, e também não havia tempo. A decisão foi abandonar as motos e seguir a pé com os guias. Eles prometeram que em um dia chegaríamos à aldeia que dava acesso à estrada. Caminhamos pela selva com eles por dois dias, e na manhã do terceiro dia eles nos abandonaram. Foram embora com a espingarda e o facão, e a gente ficou lá, com um rio para seguir. Nosso único alimento era meio quilo de açúcar. A gente avançava andando pelo rio, com água até a cintura. Quando o rio ficava mais fundo, a gente ia por terra, mas a mata era absurdamente fechada. Fora isso, era um monte de bicho fazendo escândalo, e os macacos bugios eu achava que iriam nos pegar de porrada a qualquer momento.

  1. Moto Adventure: E como vocês fizeram para resgatar as motos? Ou não as resgataram? Conte como foi:

Ary Neto: Depois que fomos encontrados por um caçador de iguanas e, logo na sequência, fomos detidos, julgados e absolvidos numa aldeia indígena, conseguimos achar a estrada e pegar carona até a capital do Panamá. Um anfitrião na cidade nos levou até as autoridades para explicarmos o que tinha acontecido. Eles entraram em contato com a liderança indígena, mas os kunas inventaram que devíamos dinheiro a eles. Complicado. Acabou que fizemos um rateio, juntamos toda a grana que o projeto ainda tinha e compramos as passagens para Havana. Pelo menos chegar a tempo do congresso a gente conseguiria; o resto teríamos que resolver depois.

Apesar de todas as dificuldades, os amiogs conseguiram chegar à Cuba para assistirem ao Congresso
Apesar de todas as dificuldades, os amiogs conseguiram chegar à Cuba para assistirem ao Congresso

Moto Adventure: Como foi a viagem a partir deste ponto? E como foi que chegaram à Cuba?

Ary Neto: Mesmo que não tivéssemos perdido as motos, talvez não conseguíssemos avançar até o México, como era o plano inicial, pois a fronteira do Panamá com a Costa Rica estava bloqueada em virtude de um protesto contra a construção de hidrelétricas na região. Sem as motos, desembarcamos em Cuba. Fomos até o local onde aconteceria o congresso e conseguimos fazer um acordo com uma vendedora ambulante para ficarmos na casa dela. Nos dias seguintes, participamos das conferências, passeamos pela cidade e fizemos centenas de refeições nas tendas de rua, pois um prato de espaguete ou uma minipizza custava uns poucos centavos.

Moto Adventure: O que aconteceu para que tenha sido necessária a intervenção da Embaixada Brasileira em Cuba a favor de vocês?

Cuba
Cuba

Ary Neto: Não tínhamos dinheiro para comprar as passagens de volta. Chegamos a ir até a Embaixada do Brasil, mas não nos atenderam. Então, no último dia, estendemos uma bandeira no saguão do palácio que sediava o congresso e começamos a pedir dinheiro. Depois de um tempo, um homem exigiu que o acompanhássemos até uma sala. Achamos que ele estava ali a mando do embaixador da Venezuela, pois o embaixador tinha ficado sabendo da nossa situação e queria nos dar uma carona até Caracas, mas só quando chegamos à sala percebemos que, na verdade, era o governo cubano. Tivemos que explicar a situação. A primeira coisa que o ministro do ensino superior cubano fez foi dizer que parecíamos Che Guevara e que devíamos ficar felizes com isso, em virtude da importância de Che para o país. Mas depois ele começou a nos passar um sermão, disse que Che nunca pediu dinheiro em Cuba, aliás, que ninguém pede dinheiro em Cuba. Quando já estávamos na lona, ele disse que agora nós éramos como filhos dele, e um filho a gente não pode fazer outra coisa senão cuidar. Ele então ligou para a Embaixada Brasileira, explicou tudo e, assim, deram início ao processo de repatriação. Durante os poucos dias em que só precisávamos esperar o voo de volta, comecei a ficar doente por causa da malária que tinha contraído na selva, mas ainda não sabia que a doença era essa. Voltei em crise para o Brasil, passei alguns dias internado, até que finalmente descobriram o que era e me deram a medicação adequada.

Chile
Deserto no Chile

Moto Adventure: Depois desta viagem, você voltou a viajar de moto? Segue pilotando ainda, ou parou?

Ary Neto: Um ano depois, viajei de São Paulo até Montevidéu, em uma Joto 135cc da marca Traxx. Alguns anos depois, quando morava em João Pessoa, fui de lá até Belo Horizonte em uma Ténéré 250cc. Algum tempo depois, comprei uma Tiger 800. Achei que faria miséria com ela, mas meu maior trajeto não chegou a 200 km. Hoje tenho uma scooter NMax do Homem-Aranha, e meu percurso mais radical é ir até o Pilates, no bairro vizinho.

Moto Adventure, a Revista dos Melhores Motociclsitas. Let’s go together!

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