Entrevista-Fausto-Macieira-O-Enciclopédia-da-Moto

Seu primeiro emprego foi em uma concessionária de motos aos 14 anos, e hoje, 50 anos depois, continua aprendendo. A única coisa que não mudou é sua paixão pela moto.

Texto: André Ramos

Fotos: Arquivo Pessoal

Ele nasceu no Dia do Motociclista: 27 de julho de 1956 e talvez esta improvável conjunção astrológica tenha determinado a natureza dos genes que recebeu, afinal, Fausto Macieira é um dos caras mais alucinados por moto que você poderá conhecer.

Apesar de nascido no Rio de Janeiro, a vida na praia não o cativou. Desde cedo, este carioca de sorriso fácil e sotaque marcadamente fluminense, gostava mesmo era de moto, tanto que seu primeiro emprego foi em uma concessionária.

E embora tenha se formado em Direito e trabalhado como advogado, o amor de Fausto Macieira pelas motos o levou de volta às duas rodas – para nossa sorte – onde permanece até hoje como um dos mais completos e apaixonados jornalistas especializados que existem.

Nesta entrevista, ele nos conta mais sobre sua trajetória que cheira a óleo dois tempos. Braaaap! 

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Fausto Macieira acompanhando o Motocross das Nações de 2001, em Namur (Bélgica)

Moto Adventure – Fausto, você já nasceu assim, viciado em motocicleta? Afinal, você é nascido no dia em que se comemora o Dia do Motociclista (27 de julho)!

Fausto Macieira – Salve André Ramos e turma da Moto Adventure! Pois é, tremenda convergência astrológica. Só fui saber desse detalhe da data de nascimento depois de velho, mas acho que tem bastante a ver. Sempre fui apaixonado nas duas-rodas-e-um-motor; meu primeiro emprego, aos 14 anos, foi em uma concessionária e desde então tenho as motos na cabeça e no coração. 

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Fausto Macieira em suas primeiras aceleradas. Se liga no estilo e nos “equipos”

Moto Adventure – Você se lembra de quando pilotou pela primeira vez? O que sentiu?

Fausto Macieira – Lembro perfeitamente, quem não? Foram muitas sensações ao mesmo tempo, acho que a principal foi a felicidade, que não terminou no primeiro tombo, ainda bem. Com qualquer moto, em qualquer situação e apenas falando delas, me sinto imensamente feliz. 

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O cara tinha estilo, vai… Petrópolis, 1979, de Honda CR 250

Moto Adventure – Você foi piloto de motocross nos saudosos Anos 70 e 80. Como era o Fausto Macieira piloto? Rôia ou bão?

Fausto Macieira – Como piloto fui esforçado, bom o suficiente para me divertir, conhecer pessoas e lugares novos. Ganhei algumas corridas e o Campeonato Carioca nas 250cc em 1980. Lá se vão quatro décadas e parece que foi ontem, ou melhor, anteontem…

Moto Adventure – E como foi que você acabou entrando para o outro lado do balcão, tornando-se jornalista especializado em duas rodas?

Fausto Macieira – Por caminhos cheios de curvas, como a maioria de nós. Começei a escrever para divulgar as corridas que fazia. Quando parei, em 1987, me formei em advocacia e exerci a profissão por um tempo, mas era tudo muito lento e formal. Em 1993 meu amigo piloto Guingo Pareto me propôs sociedade em uma loja de acessórios de motos terrestres e aquáticas, a PRP Racing. Voltei a escrever para divulgar a loja e os pilotos e dois anos depois, outro amigo piloto, João Mendes, me convidou para apresentar a fase 2 do Bike Show. O próprio João me indicou para o SporTV, onde permaneci por mais de duas décadas, sempre ligado ao motociclismo. 

Trocando uma ideia descontraída com a estrela espanhola e fenômeno da motovelocidade mundial Marc Marquez em 2018, durante o GP do Texas

Moto Adventure – Em 2009 você lançou o seu livro, “Motocicleta, A Evolução das Máquinas que Conquistaram o Mundo”. Quanto tempo foi necessário para escrevê-lo e o que ele te trouxe? Qual o significado dele para você?

Fausto Macieira – O livro foi a extensão de um artigo que escrevi sobre a história do motociclismo para o Mundomoto, página na Internet que tive desde 1999. Com esse artigo ganhei o Prêmio Abraciclo – 30 anos de Jornalismo em 2006. Um editor literário gostou do texto e me convidou para escrever um livro sobre esse tema. Fizemos duas tiragens de cinco mil exemplares, que estão esgotados. Foi um grande desafio e sou suspeito para falar, mas gostei bastante do resultado. Tempos depois o livro foi reeditado em fascículos, vendidos nas bancas de jornais. 

Moto Adventure – Apesar de você ter começado no off-road, você acabou tornando-se um especialista em motovelocidade. Como se deu isso?

Fausto Macieira – É mais um caso de oferta e demanda. O SporTV mostrava todas as etapas do Mundial de Cross, além de provas de speedway e motovelocidade de estrada. Foi assim que comecei, mas depois o motocross saiu da grade e entrou a motovelocidade. A princípio só era transmitido o Mundial de 500cc, mas as boas atuações do Alexandre Barros fizeram o interesse aumentar e passamos a mostrar todas as classes. As transmissões foram ficando cada vez maiores e precisei me preparar muito mais para comentar as corridas, treinos e atividades do Mundial. 

Com o parceiro de microfone na SporTV, Guto Nejaim: 11 anos de histórias e coberturas

Moto Adventure – Foram mais de dez anos cobrindo o Mundial de MotoGP pelo SporTV. Como você avalia este período e tudo que viveu ao lado do Guto Nejaim?

Fausto Macieira – Comecei no SporTV em 1996, como substituto do João Mendes. No início dos anos 2000 houve mudanças estruturais e a narração foi centralizada no craque Sérgio Maurício, que me ajudou muito nesse período. Em 2009 o Sérgio foi para a Fórmula 1 e o Guto Nejaim entrou, marcando presença com seu vozerio, entusiasmo e bom humor. 

Moto Adventure – Conte-nos algum causo que você vivenciou durante este período. Algum mico, algo que saiu errado em uma viagem, em um aeroporto, alguma gafe por causa da língua ou da cultura…

Fausto Macieira – Com o orçamento curto, uma vez, no Vaticano, em Roma (Itália),  convenci o Guto Nejaim a subir até o teto da Basílica de São Pedro pelas escadas para economizar os 10 euros do elevador. São intermináveis 551 degraus, sem contar a volta. Depois do ‘rolé’ o Guto disse que eu estava devendo um tênis novo pra ele. Acho que paguei a dívida, mas não tenho certeza…  

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Fausto Macieira vira e mexe atua como mestre de cerimônias em eventos importantes do segmento. Aqui, apresentando os membros do Time Honda Racing de 2020. Foto: Caio Mattos

Moto Adventure – E como está sendo este período pós-Globo, que coincidiu com a chegada da pandemia? Fale-nos o que sentiu quando recebeu a notícia.

Fausto Macieira – Eu já imaginava que isso pudesse acontecer, a renovação do contrato do Mundial estava muito difícil e, sem a MotoGP, não havia espaço para o motociclismo. Não foi surpresa, mas apesar disso fiquei desapontado. 

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O falecido apresentador Carlos Miele prestigiou o lançamento de seu livro

Moto Adventure – E como está sendo a experiência com seu canal no You Tube.

Fausto Macieira – Não esperava que fosse tão boa. É um novo formato, um novo aprendizado, com possibilidades de conteúdo que não existiam na TV. Fiquei tão entusiasmado que gravei edições diárias por seis meses. Com as limitações da pandemia passei para três episódios por semana, com edições extraordinárias quando surgem notícias relevantes e urgentes. 

Moto Adventure – E quais são os planos e expectativas para 2021?

Fausto Macieira – A ideia é seguir em frente, falando, escrevendo, comentando e especialmente andando de moto, o que, por vários fatores, fiz menos do que gostaria em 2020. Espero que 2021 nos traga menos preocupação e mais satisfação. Acho que a raça humana merece tratamento bem melhor na próxima temporada, de moto e a pé.

Braaaaaap! 

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A descontração e o bom humor sempre foram a cara de Fausto Macieira. Aqui, ele manda um “jump” em um dos saltos da pista de francesa que recebeu o Motocross das Nações de 2000. É… ele sempre teve estilo

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