Sob gestão da Bajaj do Brasil, KTM e Husqvarna iniciam uma nova etapa no mercado nacional com operação independente, ampliação da produção em Manaus, reforço na rede de concessionárias, chegada de novos modelos Adventure e a promessa de transformar o pós-venda em um dos principais diferenciais das marcas.
Texto: André Ramos (colaborou Jaqueline Deneka – marketing Bajaj/KTM)
A integração de KTM e Husqvarna à estrutura da Bajaj no Brasil inaugura uma nova etapa para as marcas austríacas no país. Em entrevista à Moto Adventure, Waldyr Roma Ferreira detalha como a operação foi estruturada para combinar a escala e a eficiência conquistadas pela Bajaj com a preservação da identidade e do posicionamento premium de cada fabricante. A estratégia envolve gestão comercial, marketing e pós-vendas centralizadas, operações independentes nas concessionárias e estruturas industriais próprias em Manaus.

A mudança também abre espaço para uma renovação do portfólio. A KTM prepara a chegada das 390 Adventure X e R, prevista para o próximo trimestre, e da 790 Adventure, esperada para o final do ano. Segundo Waldyr, a prioridade será ampliar a disponibilidade de produtos, reduzir rupturas e fortalecer o pós-venda, especialmente no fornecimento de peças — área na qual a experiência acumulada pela Bajaj deverá ser aplicada às marcas austríacas.
Mais do que uma reorganização empresarial, o movimento cria um portfólio complementar. Enquanto a Bajaj mantém seu foco em acessibilidade, robustez e custo-benefício, KTM e Husqvarna passam a explorar com maior estrutura os segmentos premium, de performance e aventura. A nova gestão também pretende ampliar as experiências voltadas às comunidades das marcas, com eventos ligados a trilhas, viagens e uso off-road.
Nesta entrevista, Waldyr Roma Ferreira fala sobre os desafios da transição, a estratégia para as concessionárias e a operação industrial em Manaus, além de antecipar os próximos passos de KTM e Husqvarna no Brasil e a visão do grupo para os próximos anos.

Moto Adventure – Waldyr, o alinhamento global entre a Bajaj e a KTM por conta das reestruturações financeiras internacionais finalmente se refletiu de forma direta no Brasil. Como foi desenhada a transição para que a subsidiária brasileira assumisse a gestão comercial, de marketing e pós-vendas da marca austríaca (e também da Husqvarna) sem perder o foco no crescimento acelerado que a Bajaj já vinha conquistando sozinha?
Waldyr Roma Ferreira – Essa transição foi construída de forma muito estruturada e, principalmente, respeitando o momento de cada marca. A Bajaj já vinha em um ritmo acelerado de crescimento no Brasil, com uma operação sólida e eficiente, e o nosso foco foi aproveitar essa base para trazer escala e consistência também para KTM e Husqvarna.
Centralizamos gestão comercial, marketing e pós-vendas para ganhar eficiência, mas mantendo o DNA de cada marca preservado. O grande diferencial foi justamente usar nossa agilidade e proximidade com o mercado brasileiro para acelerar decisões, sem perder o foco na experiência do cliente.

Moto Adventure – Como funcionará a questão das concessionárias? Elas partilharam espaços em lojas Bajaj ou terão uma operação própria? Ou em algumas praças haverá um modelo híbrido de operação? Nestes casos, pensando no cliente de motos de alta performance e aventura, como essa integração vai funcionar na prática para que a essência e o posicionamento premium de cada marca sejam preservados?
Waldyr Roma Ferreira – Nosso modelo prevê operações independentes para cada marca. As concessionárias da Bajaj, KTM e Husqvarna terão estruturas comerciais e de pós-vendas bem definidas e separadas, sempre seguindo rigorosamente os guidelines de cada uma das marcas.
Em algumas praças, pode haver compartilhamento de terreno ou proximidade física, por uma questão estratégica e de eficiência, mas a experiência do cliente será totalmente dedicada. Cada marca terá seu próprio ambiente, identidade, atendimento e jornada, respeitando seu posicionamento.
Isso é fundamental principalmente para KTM e Husqvarna, que possuem um perfil premium e um público muito específico. Nosso foco é garantir que essa essência seja preservada em todos os pontos de contato, oferecendo uma experiência à altura da proposta de cada marca.

Moto Adventure – Embora a gestão comercial esteja unificada, foi divulgado que a manufatura das motos KTM seguirá uma linha e estrutura de montagem independentes no Polo Industrial de Manaus, com capacidade futura expressiva. Como funcionará a convivência industrial e logística entre a planta recém-inaugurada da Bajaj e essa nova linha da KTM em termos de eficiência e nacionalização de componentes?
Waldyr Roma Ferreira – A nossa estratégia industrial em Manaus foi desenhada para garantir autonomia e, ao mesmo tempo, capturar sinergias operacionais. Cada marca terá seu próprio prédio, com fábrica e linhas de produção independentes, respeitando integralmente as necessidades técnicas, padrões de qualidade e processos específicos da Bajaj, KTM e Husqvarna.
Ao mesmo tempo, teremos integração em frentes estratégicas como logística, cadeia de suprimentos e algumas áreas de suporte à operação, o que traz ganhos importantes de eficiência e escala.
Esse modelo nos permite manter a identidade e excelência produtiva de cada marca, enquanto otimizamos custos, aumentamos competitividade e criamos uma base sólida para evolução da nacionalização de componentes ao longo do tempo.

Motoadventure – Nosso público majoritário é composto por aficionados por viagens e uso misto, e a linha Adventure da KTM sempre desperta paixões. Vocês confirmaram a chegada das aguardadas 390 Adventure (versões X e R) para o próximo trimestre, além das 790 Adventure para o final do ano. O que o motociclista brasileiro pode esperar dessa nova safra em termos de competitividade, tecnologia embarcada e disponibilidade de estoque?
Waldyr Roma Ferreira – O motociclista brasileiro pode esperar produtos extremamente competitivos, com alto nível de tecnologia embarcada e, principalmente, maior disponibilidade.
A chegada de novos produtos marca um novo momento da KTM no Brasil, com uma proposta mais robusta em termos de portfólio e abastecimento. Nosso objetivo é reduzir rupturas e garantir uma experiência mais consistente para o cliente, tanto na compra quanto no pós-venda.
Moto Adventure – O calcanhar de Aquiles de muitas marcas importadas ou em transição de comando no Brasil costuma ser a disponibilidade de peças e o custo de manutenção. Com a robusta estrutura logística que a Bajaj ergueu no país, quais são as metas reais e imediatas para transformar o fornecimento de peças da KTM e da Husqvarna em uma referência de agilidade para os antigos e novos proprietários? Que ensinamentos a experiência com a Bajaj pode contribuir com a gestão da KTM?
Waldyr Roma Ferreira – Esse é um dos pilares mais importantes para nós. A Bajaj estruturou no Brasil uma operação logística muito eficiente, e vamos aplicar esse mesmo modelo para KTM e Husqvarna.
Nossa meta é clara: reduzir prazos, aumentar disponibilidade e tornar o pós-venda uma referência no mercado. Queremos que o cliente tenha confiança não só no produto, mas em toda a jornada com a marca. A experiência que adquirimos com Bajaj nos dá muita segurança para evoluir rapidamente nesse aspecto.
Moto Adventure – Com a Bajaj focando fortemente na consolidação da linha Dominar (com excelente aceitação em categorias urbanas e de média cilindrada) e a KTM cobrindo o nicho premium de alto desempenho e off-road, como você enxerga a complementaridade desse novo portfólio? Existe a intenção de criar uma ‘escada de upgrade’ para que o cliente comece na linha Bajaj e evolua naturalmente para o universo KTM ou Husqvarna?
Waldyr Roma Ferreira – Existe uma complementaridade muito clara. A Bajaj atende um público que busca acessibilidade, robustez e custo-benefício, enquanto KTM e Husqvarna atuam no segmento premium, com foco em performance e tecnologia.
Naturalmente, existe sim a oportunidade de criar uma jornada evolutiva para o cliente. À medida que ele amadurece no uso da motocicleta, pode migrar dentro do nosso portfólio, sempre encontrando uma marca e/ou produto que atenda ao seu momento.
Moto Adventure –A Bajaj tem apostado muito em experiências de comunidade no Brasil, como o programa Dominar Rides. Por outro lado, o fã da KTM tem uma cultura muito forte ligada às competições, trilhas e ao espírito ‘Ready to Race’. A nova gestão pretende criar eventos de experiência específicos para este cliente?
Waldyr Roma Ferreira – Sem dúvida. A KTM tem um DNA muito forte ligado à performance, competição e aventura, e isso precisa ser vivido na prática.
Vamos ampliar as iniciativas de experiência, com eventos voltados para trilhas, viagens e uso off-road, além de ações que conectem a comunidade. Assim como fizemos com Dominar Rides na Bajaj, queremos fortalecer o relacionamento com os clientes KTM e Husqvarna por meio de experiências autênticas.
Moto Adventure –Para fechar: a Bajaj atingiu marcas expressivas de emplacamento e já alcançou uma posição sólida no ranking do mercado nacional. Com a incorporação das marcas austríacas, onde você projeta que o grupo consolidado estará até o final de 2027 em termos de participação de mercado no segmento premium e volume de produção em Manaus?
Waldyr Roma Ferreira – Nossa visão é consolidar o grupo como um dos principais players do mercado brasileiro, com presença relevante tanto em volume quanto no segmento premium.
A Bajaj seguirá crescendo de forma consistente, enquanto KTM e Husqvarna devem ganhar participação com uma operação mais estruturada e competitiva. Em Manaus, temos capacidade para expandir a produção de forma significativa, acompanhando essa evolução.
Mais do que números, nosso foco é construir marcas fortes, com operação sustentável e uma experiência de cliente que seja referência no mercado.
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