Guia de viagem: O caminho das pedras

Guia de Viagem

O piloto e moto turista Márcio Silveira, com muitas viagens nacionais e internacionais na bagagem, elabora um “guia” para o leitor aproveitar bem sua viagem

Texto Márcio de Souza Silveira
Fotos Arquivo Pessoal

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O  catarinense Márcio Silveira, 32 anos, é especialista em Direito e filho de motociclistas. Aos 13 anos adquiriu sua primeira motocicleta e já aos 16 anos fez uma viagem pilotando. Depois da experiência, seguiu unindo o motociclismo às aventuras e viagens. Márcio já empreendeu aventuras de moto pela Itália, Argentina, Uruguai, Chile, Peru, Bolívia, Paraguai, e por diversos Estados brasileiros e foi o primeiro motociclista a cruzar a Carretera Austral em um scooter e um dos raros a cruzá-la de moto no inverno. Colaborador de Moto Adventure, revista na qual publicou os relatos de algumas de suas viagens, Márcio elaborou um pequeno “guia” para orientar o leitor em sua próxima viagem.

Confira:

1 – O importante é o caminho, e não o destino

Para motociclistas brasileiros, uma viagem a Ushuaia, no extremo sul da Argentina, exemplifica bem a diferença entre chegar e viajar, atingir e construir e, ainda, entre correr e viver. Registrar a tradicional foto ao lado da placa onde a inscrição “Bem-vindo à cidade mais austral do mundo” está gravada é gratificante, mas não é o melhor. Alguns percebem isso e outros, não. Sim, é inevitável a emoção e não estou desqualificando o feito, mas, mais importante do que chegar, é aproveitar com o mesmo entusiasmo e se abrir a desfrutar com a mesma importância todos os dias que levam até lá. Eles podem ser tão emocionantes quanto, podem mostrar lugares até mais bonitos e permitir fotos até mais reveladoras. A placa final, destino atingido, pode gerar a tristeza do fim de todas as possibilidades ou a sensação de ter vivido intensamente, vai depender de como o percurso entre saída e chegada foi aproveitado. Eu chego até a desconsiderar esses pontos.

2 – O essencial são as pessoas

Tentei recordar de uma viagem na qual eu realmente fiz tudo sozinho, participei de tudo sozinho e que eu lembrasse somente da minha presença nela, e não encontrei. Meu pai me ensinou com arte a pilotar uma motocicleta, foram centenas de viagens juntos, centenas de revistas e livros lidos e corridas assistidas. Start pressionado, ele está comigo.  Sendo menos embrionário, o que dizer daquele rapaz lá do posto de combustível de Alegrete que contou também ter os mesmos sonhos, que eu o estava inspirando, que tirou uma foto comigo e depois me enviou; da empresa que me presenteou com uns tantos pares de pneus; daquele rapaz do interior de Goiás que, quando eu achei que tudo estava terminado, moto quebrada na noite debaixo de um temporal de céus negros, surge do meio da escuridão com uma Titan 125 e me reboca até a cidade mais próxima; da família chilena que me aturou dias e dias em Santiago; dos amigos que disseram vá e dos palpiteiros que disseram que era impossível. Citando exemplos daria um livro e todos tiveram a mesma importância.

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O caminho das pedras…

3 – Ser maior do que seus medos

No cotidiano já temos problemas, e nem por isso deixamos de viver. Na viagem também teremos, não é por eles que vamos deixar de ir. No caminho eles serão resolvidos, não temos como antecipar todos e garanto que, depois de solucionados, fica um grande sabor de vitória e mais uma história legal para contar. Pessoas vão ajudar, elas são essencialmente boas. Para amenizar é bom ler livros e revistas sobre o assunto, conversar com outros motociclistas, ver mapas, fotos, fazer um roteirinho e pronto, sem exageros, hora de partir. Muito medo na bagagem aumenta o peso e às vezes até impede de partir.  Meu maior medo sempre foi o de não ir.

4 – Menos (planejamento) é mais!

Assim como o medo pode impedir de partir, já vi o excesso de planejamento também causar o mesmo problema. Principalmente numa viagem solo, a liberdade é um dos maiores atrativos. Levar muita bagagem se tornará cansativo, reservar hotéis pode impedir um caminho diferente que foi descoberto somente in loco, pode obrigar a apressar, sem dúvidas vai gerar uma tensão da obrigação de se manter no roteiro e datas. Isso quase todos já fazemos no dia-a-dia, na viagem não agende nada, não reserve, não planeje paradas, esteja aberto ao novo, ao imprevisto. Viajei por todo o litoral do Brasil no verão, estava tudo muito cheio, mas sempre achei onde dormir, comer, parar, fazer manutenção na moto, só leva uns minutos a mais de pesquisa, mas a escolha na hora sempre é melhor do que a antecipada.

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O caminho das pedras…

5 – Nem só de fotos se constrói uma viagem

Aventureiros, viajantes, os verdadeiros, são generosos, gentis e amáveis. Sempre acenam, param para conversar, saber de onde viemos e para onde vamos, falar da moto do tempo e saber como está o caminho no sentido contrário. Agarre esse momento sem pressa, pois estamos somando a nossa viagem a bagagem da viagem de outro. Sem dúvidas em nossa volta vamos lembrar histórias do colega e ainda vamos contar elas novamente a nossos amigos pacientes que vão nos escutar. No nosso cotidiano não falamos com estranhos, não damos carona, não saímos para conhecer pessoas desconhecidas, não recebemos em casa e nem damos abrigo. Eu fiquei na casa de gente que nunca vi, fiquei horas conversando com pessoas que conheci em poucos segundos sem me arrumar para um encontro, sem me preparar, sem agendar nem telefonar, expondo toda minha essência, fiz amizades, bebi litros de vinho no Chile esperando a neve ser removida da estrada, relacionamentos e amizades construídas em poucos minutos. Alguns me deram mais em poucas horas do que outros durante anos de vida. Sobre as fotos, vejo tantos pulando de ponto em ponto e fotos e fotos, parecem caçadores. A foto só revela uma imagem, e muito pequena. Concentre-se em sentir o cheiro, a temperatura, a grandeza da paisagem, o vento e sentir o momento, certamente quando você, anos depois, resgatar aquela foto, será capaz de reviver o momento. Costumo fazer isso antes da foto, ainda dou uma piscadinha com meus olhos como se fosse um clique, brincando de registrar na memória, depois saco aquela maquininha que parece até ridícula perto do meu cérebro.

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6 – As necessidades mudam

Fazemos a barba todo dia, quando chove saímos correndo, trocamos de roupa diversas vezes e cuidamos para não repeti-las, comemos em horário definidos, temos uma roupa para noite, outra para festa, outra para trabalho, celular colado no corpo a todo segundo. Temos dia de semana e final de semana. Na semana temos muito que fazer e no final de semana temos que procurar o que fazer. Na viagem a beleza muda de padrão e o barbudo passa a impressão de mais valente, a roupa mais desbotada mostra a experiência que já vem impressa também na alma. Pelo caminho vamos adaptando, logo a chuva deixa de ser um incômodo e passa a ser literalmente o melhor banho do dia, vivemos sem hora, sem data e sem semana. Antes de sair nos preocupamos se vai estar muito frio, quando estamos lá e começa a nevar a felicidade contagia, o homem vira criança, eu, dentro do meu capacete grito, choro, falo e canto. Na cidade desviamos da poça d’água, na viagem enfiamos as botas nela pela travessia de um rio. Quando voltei de meses viajando, eu não queria ir a restaurantes, eu não me angustiava em inventar o que fazer, estava tão satisfeito com tudo isso que o valor de tomar banho e dormir dias seguidos no mesmo lugar, ter momentos sem fazer nada mudou. Hoje tenho menos roupas, não tenho guarda-chuva, não uso relógio.

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O caminho das pedras…

7 – A beleza dos caminhos mais difíceis

Estava em Tacna, no Peru, e existiam dois caminhos para seguir ao norte, o caminho por onde todos seguiam, pois era mais rápido e curto, e outro pelo litoral encostado na espuma do Pacífico. Escolhi o segundo e recebi o prêmio da natureza. Viajando não é o momento de buscar o mais prático e rápido, é hora do diferente, novo, lindo, que vai te dar as histórias, fotos e sabor de superação. Se não estás cansando, estás bonito e limpo como no dia-a-dia, está tudo dando muito certo, não chove, não neva, não atravessas um deserto, um rio, tem algo de errado com essa viagem. Sempre que vou de Florianópolis a Balneário Camboriú, aumento o trajeto e sigo pela fantástica Interpraias. Quando fazia o trecho de Criciúma para Florianópolis vinha por cima da serra, dobrando o trecho, a emoção, as fotos, as histórias. Não sou do tipo que percorre o caminho para chegar, que corre ao fim. Sim, a beleza está em todas as partes e em todos os momentos. O mesmo caminho pode ser percorrido no sentido norte ou no sentido sul e ele será diferente, ou pode ser percorrido à noite ou de dia, com sol e com chuva será diferente, inverno ou primavera, será mais seco ou mais florido, mas não deixe de ir pelo que parece mais longo, frio, esburacado, ele provavelmente vai te surpreender.

*Matéria publicada na edição #174 da revista Moto Adventure.

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