Expedição Africa Twin – Moto Adventure rumo ao Peru

Expedição Africa Twin
Expedição Africa Twin

12 dias de viagem, 6.116 km rodados entre o Brasil e Peru de Honda Africa Twin

Texto: Cicero Lima/Redação
Fotos: Renato Durães

Expedição Africa Twin

Você gosta de apreciar um bom vinho, degustar peixes exóticos em um ambiente refinado? Ou prefere longas caminhadas em meio a ruínas de cidades antigas? Talvez escolha curtir um passeio de avião, sentindo o peso da força G, enquanto observa figuras misteriosas esculpidas no deserto. Essas foram algumas das atrações do roteiro que começou no Guarujá (SP), às margens do Oceano Atlântico, e seguiu até Lima, no Peru, junto ao Oceano Pacífico.

Foram 12 dias de viagem, 6.116 km rodados a bordo da nova Honda Africa Twin. Nossa viagem, batizada de Expedição Interoceânica, serviu para avaliar como o novo modelo da Honda se comporta em longos trajetos.

A viagem, que começou em 30 de janeiro, mostrou o que há de mais interessante e desafiador entre os dois oceanos. Conheça o roteiro e se inspire para uma experiência fascinante com sua motocicleta.

O grande atrativo de uma longa viagem é desfrutar das estradas. Enquanto deixávamos o Estado de São Paulo para trás era possível perceber a incrível transformação da paisagem e do clima. Ainda em São Paulo, a monotonia das grandes plantações e pastagens se mistura às boas   condições das estradas duplicadas como as Rodovias Castello Branco e Marechal Rondon. Cruzamos o Rio Paraná para entrar em Mato Grosso do Sul. Nesse trecho – na altura de Três Lagoas – a pista é simples e começa o intenso tráfego de carretas transportando grãos.

Nesse trecho a proteção aerodinâmica das motos foi o destaque. O enorme para-brisa desvia o vento e não permite que insetos e sujeira atinjam diretamente o piloto. Com paradas a cada 200 km para descanso e abastecimento, o consumo da Africa Twin ficou na média de 16 km/litro, rodando em velocidade de cruzeiro de 120 km/h.

Esse intenso fluxo de carretas acompanhará o viajante ainda pelos Estados de Mato Grosso e Rondônia. Quem tiver tempo pode desviar do roteiro – apenas 100 km de Cuiabá (MT) e seguir para a região de Poconé (MT). Lá é a entrada do Parque Nacional do Pantanal Matogrossense.

Nessas estradas o torque da moto (9,3W kgf.m a 6.000 giros) ajudava bastante nas ultrapassagens, pois os caminhões andam em comboios – um grudado no outro. Bastava aguardar o momento mais seguro para realizar a manobra e acelerar.

Rondônia

Como tínhamos um roteiro pré-definido, e reservas nos hotéis, seguimos em frente pela BR 174, depois acessamos a BR 364 rumo a Rondônia. Para se ter uma ideia do deslocamento, a distância entre as capitais Cuiabá (MT) e Porto Velho (RO) é de 1.460 km. A capital de Rondônia pode ser um bom ponto de hospedagem e um dia de descanso. Quem gosta de história pode visitar o Museu da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, onde estão antigas locomotivas e composições da estrada de ferro mais famosa do Brasil.

Após Porto Velho a viagem se torna mais agradável. Em meio à floresta a rodovia BR 364 atravessa partes da floresta e as chuvas fortes do final de tarde servem como refresco. Ela chega, molha e depois o sol volta a brilhar. Em meio à floresta a visão de enormes castanheiras se destaca em meio à paisagem. Um dos momentos mais legais é ver o que restou da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré ao lado da estrada. Velhas máquinas abandonadas são “devoradas” pelas plantas e lutam contra a corrosão. Depois chega a hora de cruzar a balsa do Rio Madeira.

A balsa é enorme e foi preciso manobrar as motos para encaixá-las nas vagas. Mesmo tratando-se de uma 1.000 cc, a Africa Twin se mostrou leve (peso a seco de 212 kg), facilitando a manobra. O mesmo acontecia ao parar para abastecer ou guardar nas garagens dos hotéis.

Ao chegar a Rio Branco, capital do Acre, é indicado ao viajante fazer a revisão da motocicleta e preparar-se para cruzar a fronteira com o Peru. Mesmo sendo uma passagem tranquila, é bom reservar pelo menos duas horas para os trâmites legais.

Documentos pessoais

Além do passaporte (dentro da validade) o viajante pode usar a carteira de identidade, RG (expedito há menos de dez anos).

Vacina

Não deixe de tomar a vacina contra a febre amarela. Peça também a Carteira Internacional de Vacina. Embora não seja comum, ela pode ser exigida pelas autoridades.

Documentos do veículo

O veículo tem de estar em nome do proprietário e não pode ser alienado. O motorista deve ter CNH – dentro da validade – e emitir o seguro de viagem.

Estradas do peru, a grande atração

Após passar pela fronteira começa uma nova fase da viagem. As estradas são muito diferentes, com excelente piso e sinalização extremamente eficiente. É uma condição que pode empolgar quem gosta de correr, porém não é bom abusar. Até mesmo nos pequenos vilarejos existe um forte policiamento e viaturas escondidas. O grande atrativo é desfrutar da paisagem que mescla plantações e floresta fechada.

Nesses vilarejos o viajante terá contato com o trânsito de “tuc-tuc”. Esses veículos são usados no transporte de pessoas e cargas. Lentos e mal sinalizados, podem cruzar a estrada a qualquer momento. Convém tomar o máximo de cuidado para não haver problemas. Acostume-se a eles, que são comuns em todo o Peru.

A primeira grande cidade é Puerto Maldonado, distante 230 km da fronteira, que oferece uma boa estrutura hoteleira e pode ser um bom lugar para dormir. Outra opção é seguir em frente, por aproximadamente 200 km, até Mazuco. A cidade é bem menor, os hotéis bem mais simples, porém está mais próxima à subida da Cordilheira.

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Enfim, a montanha

De Mazuco até Cusco são apenas 300 km. A maioria dos viajantes se empolga com a pouca distância. Esse é o trecho que apresenta a maior dificuldade, por conta da altitude de 4.725 metros acima do nível do mar, o que exige aclimatação ao ar rarefeito.

Efeitos da altitude

É recomendável tomar muito chá de coca ou mascar a folha, para diminuir os efeitos do soroche – também conhecido com o “mal da altitude”. Os efeitos da altitude atingem pessoas de formas diferentes. Então, é importante levar uma garrafinha de oxigênio (que é vendida

nas farmácias). Vale ressaltar que, ao sentir tonturas ou dor de cabeça muito intensa, é recomendável estacionar o veículo e descansar um pouco, pois existe o risco de “apagar” ao guidão.

Além do mal da altitude o viajante poderá enfrentar baixas temperaturas, por isso é recomendável roupas tipo “segunda pele”, luvas e botas impermeáveis. O protetor de manete – do tipo “cobre-tudo” é um grande aliado contra o frio. O ideal é manter as extremidades do corpo (pés e mãos) aquecidas.

A vantagem de viajar com as malas da Africa Twin foi transportar as luvas sobressalentes e a capa de chuva de forma prática. Quando foi preciso bastou abrir o baú e usar o equipamento.

Curtir o visual

Os cumes das montanhas cobertos de neves, a visão das pedras e animais estranhos para nós, como lhamas e vicunhas, compensam a viagem. Ainda assim, fique alerta. Cuidado com a travessia desses animais, um impacto com eles pode ter sérias consequências. Embora a moto tenha sistema de freio ABS, convém não abusar da sorte.

Ao subir a montanha, as árvores são substituídas por pedras e as curvas na altitude são cada vez mais fechadas e exigem muita concentração. O trecho, de apenas 300 km, consome praticamente o dia inteiro, pois os viajantes param para fazer fotos. Além disso, as tempestades são comuns. Nessa situação, vale contar com o controle de tração no nível mais intrusivo, assim, ao passar por trechos alagados, a moto não derraparia. O mesmo acontece ao superar os trechos sempre molhados e lisos ao pé da montanha.

A chegada a Cusco é cercada de novidades e dificuldades, a começar pelo trânsito intenso e ruas estreitas. Quem optar pelos hotéis na área central da cidade – Praça das Armas – terá dificuldade para estacionar, porém estará no lugar mais legal da cidade. Até mesmo para motociclistas, rodar em Cusco, no horário de rush, é um desafio.

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A grande atração

Cusco é o ponto de partida para conhecer Machu-Picchu, uma das maravilhas da humanidade. A cidade sagrada dos Incas deve ser visitada. É quase uma obrigação! E o viajante não se arrependerá. As construções em pedra desafiam a nossa lógica ao nos depararmos com o formato, tamanho e posições dos enormes granitos. Além disso, o fato de estar acima do vale mostra o enorme desafio que os Incas venceram para erguer Machu-Picchu.

Machu-Picchu – Quanto custa?

  • Trem para Aguas Calientes a partir de US$ 70
  • Micro-ônibus Aguas Calientes Machu-Pichu US$ 18
  • Ingresso no Parque Machu-Pichu US$ 70

Obs. O parque recebe somente 2.500 visitantes por dia, portanto vale antecipar e fazer a reserva no site.

O ponto de partida para chegar lá é a cidade de Ollantaytambo, de onde parte o trem para Aguas Calientes, que está ao pé da montanha. O trajeto de trem, com duração de uma hora e meia, é muito interessante. Acostumadas a receber turistas de todo o mundo as empresas sabem agradar os viajantes e oferecem pacotes com diferentes níveis de serviços e preços.

A caminho de Nazca

O trecho entre Cusco e Nazca é o mais exigente da viagem. São 650 km que desafiam a habilidade do piloto e pedem muita atenção às curvas e condições climáticas. As tempestades são constantes, assim como a neve ou a chuva de granizo, tudo em temperaturas extremamente baixas – abaixo de 5 graus C na área dos altiplanos com altitude de 4.500 metros acima do nível do mar.

Em contrapartida, as paisagens são de uma beleza inebriante. Lagoas azuis se misturam a montanhas vermelhas com seus picos nevados.

Enquanto isso os animais, como lhamas e vicunhas, pastam livres nos campos. Flamingos vermelhos colorem o céu azul que, em instantes, está repleto de nuvens e a tempestade pode chegar sem aviso. Nessa condição as estradas mesclam longas retas, no trecho de altitude, com milhares de curvas no trecho de montanhas. O sobe e desce é intenso e o viajante deve se preocupar em manter a concentração.

Quem passar por lá deve fazer uma parada para abastecimento em Chalhuanca e Puquio, pois os postos são distantes e não há garantia de conseguir combustível. Por isso existe um comércio informal de gasolina, as placas nas casas atestam isso. Nesse último trecho de montanha encontramos a única estrada em más condições com buracos e lama no meio das curvas. Como já era noite contamos com o farol de LED da Africa Twin, enquanto a roda dianteira (aro de 21 polegadas) permitia passar pelos buracos com relativa tranquilidade. Mais uma vez o controle de tração foi muito utilizado.

Voo radical

Chegando à cidade de Nazca o viajante deixa para trás as altitudes da Cordilheira e passa a conviver com o deserto e as temperaturas elevadas.

Uma das grandes atrações é conhecer as enigmáticas Linhas de Nazca. O melhor jeito para fazer isso é pelo alto. Existem diversas companhias aéreas que operam voos de 40 minutos. Nesse tempo é possível conferir a imponência das famosas figuras desenhadas no deserto.

Os aviões são pequenos e os pilotos experientes. O passeio é radical e, quem não gosta de emoções fortes, pode se incomodar com a força G. Uma experiência imperdível que vale cada centavo. É recomendável fazer o passeio logo pela manhã, quando o vento está mais fraco e há menos turbulência. Outra dica: não coma alimentos pesados antes de voar, deixe para tomar o café reforçado quando voltar ao hotel.

Expedição Africa Twin
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Linha de Nazca

As operadoras turísticas vendem pacotes completos a partir de US$ 80. No valor está incluído o transporte do hotel ao aeroporto (ida e volta) além do voo panorâmico, com a duração de 40 minutos.

De Nazca a Lima

Depois de curtir as Linhas de Nazca a viagem tem como destino Lima, a capital do Peru. São aproximadamente 500 km entre as duas cidades, rodando pela Rodovia Panamericana. A estrada, com poucas curvas, é um colírio para os olhos do motociclista que, até então, estava acostumado às curvas. Com a Africa Twin era possível atingir os 180 km/h – apesar do vento lateral.

O trecho apresenta uma paisagem praticamente lunar, misturando as areias do deserto com montanhas de coloração vermelha. Ao fundo, o azul do Oceano Pacífico se destaca. A estrada tem diversas paradas de cobrança de pedágio, mas as motos não pagam e passam pela lateral da estrada.Lima surge no horizonte. Imponente, a cidade foi construída sobre escarpas na montanha.

No alto das grandes paredes naturais surgem edificações sofisticadas da região de Mira Flores.A cidade tem uma vida noturna agitada e se destaca pela gastronomia baseada em peixes. Quem gosta de frutos do mar se fartará tanto pela diversidade, qualidade e quantidade dos pratos.

Depois de 6.116 km rodados, entre o Atlântico e o Pacífico, o roteiro se mostrou um vasto cardápio de estradas e lugares inusitados. Uma experiência inesquecível para quem gosta de viajar de moto, trocar experiências e conhecer paisagens fascinantes.

VEJA TAMBÉM: Sonho e superação: Viagem de moto para o Deserto do Atacama, Chile.

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