Roteiro: Viagem para Madagascar – Parte 1

Madagascar

Realizado pela Touratech, o “United People of Adventure” reuniu representantes dos seis continentes para dividirem a paixão pelo motociclismo de aventura como companheiros em uma viagem para Madagascar. O resultado foi muito além do que se pode imaginar

Texto: Rosa Freitag
Fotos: Divulgação

Em setembro de 2015, a Touratech, fábrica alemã de acessórios para motos big trail e touring, postou nas mídias sociais um chamado para motociclistas do mundo inteiro concorrer a uma vaga na equipe “United People of Adventure”.  Assim, o casal de proprietários da marca, Herbert e Ramona Schwarz, quis reunir representantes de seis continentes para compartilharem diferentes culturas e habilidades e dividirem a paixão pelo motociclismo de aventura, como companheiros em uma viagem para Madagascar. Eles criaram também o site www.real-adv.com e os interessados deveriam enviar um vídeo de três minutos para convencê-los de que seriam bons parceiros nessa aventura. Assim, eu, Rosa Freitag, motociclista brasileira, preparei uma colagem de fotos revisitando meu percurso no motociclismo de aventura, desde um rally no Marrocos em Vespa até a participação na primeira equipe feminina mundial do BMW GS Trophy e a organização de competições e passeios em grupos do Facebook. E revelei meu lema pessoal: “Audaces fortuna juvat” (a sorte favorece os audazes).

Dentre mais de 200 vídeos, foram selecionados dois representantes de cada continente, e esses 12 finalistas foram convidados para uma reunião em um final de semana na sede da Touratech, na Alemanha, em fevereiro, para Herbert e Ramona elegerem os seis vencedores. Fui escolhida como representante da América do Sul, juntamente com o gaúcho Gunther Fischli. Da América do Norte, o canadense Claude Auchu e o californiano Benjamin Myers; da Europa, a islandesa Inga Birna Erlingsdóttir e o também islandês Gudmundur Bjornsson; da África, o egípcio Omar Alfardy e o ugandense Ismail Kirumira; da Ásia, o japonês Taro Mizutami e o indiano July Behl, e da Oceania, os australianos Robert Davies e Andrea Box (totalizando três mulheres finalistas).

PREPARATIVOS

Chegando de todos os cantos do mundo, nos encontramos no aeroporto de Stuttgart e ficamos hospedados na “humilde choupana” do casal Schwarz, como se fôssemos velhos amigos. Uma casa de 800 anos em Villingen-Schwenningen, na borda da Floresta Negra. Lá também estava a equipe que produz os vídeos da Touratech em viagens pelo mundo.

No dia seguinte, um tour pela fábrica, em Niedereschach, vilarejo adjacente.

Na manhã seguinte, fomos à loja da fábrica, onde há dezenas de motos equipadas em meio às seções de acessórios, roupas, bagagem, camping e mapas e GPS. No fundo da loja havia 12 malas de viagem amarelas, cor típica da marca, com o nome de cada um. Fomos instruídos a escolher capacete, botas, segunda pele e roupa de viagem e ir colocando nessa mala.

Lá fora estava nevando, e aí fomos surpreendidos: pediram para nos equiparmos e entramos numa van. A poucos minutos dali, chegamos a uma pista de motocross indoors, onde nos aguardavam uma BMW F800GS, uma R1200GS e uma Yamaha Teneré 660, com malas laterais. Brincamos nas curvas fechadas, lama e morrinhos e assim ficou evidente a intimidade de cada um com essas motos pesadas em situações típicas de uma viagem de aventura. No dia seguinte, uma psicóloga aplicou testes de autoavaliação da personalidade e dinâmica de grupo. No fim da tarde, os momentos mais emocionantes: cada finalista devia explicar por que o outro candidato do seu continente é quem deveria ir a Madagascar. Herbert e Ramona amargavam um dilema ao se verem obrigados a escolher, e deixaram a resposta para depois do jantar. Fomos intimados a entrar em uma banheira de hidromassagem às dez da noite, e com champanhe e lágrimas foram anunciados os vencedores: Benjamin (EUA), July (Índia), Gudmundur (Islândia), Andrea (Austrália), Omar (Egito) e Gunther (Brasil). Robert, da Austrália, foi convocado posteriormente, pois surgiu uma vaga para fotógrafo e ele mostrou grande aptidão, além de ser médico.

Fiquei desapontada, mas achei a escolha justa. Gunther demonstrou iniciativa, espírito de equipe e força. Já as motos, com suspensão preparada, proteções, pneus off-road (Pirelli Scorpion Rally) e maletas com os equipamentos de camping, já tinham sido despachadas para Madagascar em um contêiner, por via marítima. E foram alocadas da seguinte maneira: América do Norte: Ducati Multistrada Enduro; América do Sul: Suzuki V-Strom 1000; África: Yamaha Super Teneré; Ásia: KTM 1190 Adventure; Europa: Honda Africa Twin; Austrália: Triumph Tiger XC 800. Herbert: BMW R1200GS Adventure, Ramona: BMW F800GS Adventure. O cinegrafista Jan-Peter em uma F800GS “1000 km”, o jornalista Jon Bentman em uma Tiger Explorer 1200 e o repórter Kurt Yeager em uma KTM 1290.

AVENTURA EM MADAGASCAR

Como o gosto e paixão desta aventura já estava em mim, desejava muito relatar o que aconteceu depois, Assim, montei um relato desta aventura baseado em conversas com Gunther que contou o seguinte:

“No primeiro dia de viagem a equipe voou de Paris para a capital de Madagascar, Antananarivo, e mais uma conexão até Sambava. De caminhonete, chegaram a Antalaha, no resort Ocean Momo, onde já estavam as motos.

PRIMEIROS DIAS

Demos uma volta de uns 20 km para nos habituarmos com as motos e visitamos um orfanato. Era tudo muito pobre, mas as crianças estavam saudáveis e felizes, cuidadas por freiras. Eles falam malagasy e francês. Mostramos fotos dos nossos países e à noite fizemos uma vaquinha para comprar colchões novos para todas as crianças.

No dia seguinte fomos a um estádio, o prefeito nos recebeu, demos várias voltas levando muita gente na garupa. Eles nunca tinham visto motos grandes.

Mais tarde, levamos os colchões ao orfanato. Para os europeus, como o Gudmundur, essa ação filantrópica foi muito marcante – ele nunca tinha visto de perto esse tipo de situação. Visitamos também um centro de preservação da fauna e da flora. Naquela noite, chegou o barco que trazia as motos. Então colocamos a bagagem nas motos e nos preparamos pois, via litoral, voltaríamos rodando em 10 dias para Antananarivo.

No quarto dia de viagem cada um tinha que levar na moto comida para dois dias e 10 litros de água. Benjamin, July e Ramona prepararam as provisões e dividimos uma carga de batatas, arroz, açúcar, café, abacate e cebolas. Sem carro de apoio, contamos com quatro guias locais e mais cinco mototáxis que nos ajudaram a levar as provisões e equipamentos.

Saímos pelo asfalto por uns 10 km e, quando acabou o asfalto, começou a lama. O terreno era plano, com pequenos morros, e nas partes mais baixas acumulava mais lama. Eu evitava que a moto patinasse, sempre andando em segunda marcha. Omar (Super Teneré) nunca tinha andado na lama, Benjamin (Ducati) e July (KTM) também tiveram dificuldade com as motos. Andrea (Tiger 800) foi uma revelação como piloto. Ramona lutou com a altura da F800GS, e os melhores pilotos eram Kurt Yaeger, Jon Bentman e o câmera Jan-Peter, conduzindo uma F800GS com tanque para 42 litros de combustível e muitos equipamentos. Para levantar as motos nesses trechos de lama, eram necessárias três ou quatro pessoas.

Atravessamos dois rios em pequenas balsas: duas canoas com madeiras perpendiculares e pedaços de bambu para empurrar. Eram 22 motos e a primeira travessia demorou duas horas. E isso nos dava a oportunidade de interagir com os locais, arranhando um pouco de francês.

No fim da segunda travessia, lá pelas 16h00, era hora de montar acampamento. Um pastor de uma igreja próxima sugeriu um lugar em frente à praia. Vale dizer que o dia amanhecia às 5h30 e escurecia às 17h30.

No quinto dia acordamos às 5h00, com um vento forte. Desmontamos o acampamento e saímos às 6h00. Omar já tinha caído algumas vezes na lama, e numa dessas quedas o bauleto ficou em cima do pé dele. Era certeza de uma fratura. Chamaram uma caminhonete, que levou duas horas para chegar, e tristemente ele teve que partir. Nesse dia começou a chover, muita lama, pontes precárias e tínhamos que passar empurrando a moto. Montamos barracas sob chuva torrencial. Essa chuva atrasou demais o nosso progresso.

Confira a Parte 2 da aventura.

*Matéria publicada na edição #187 da revista Moto Adventure.

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