Motociclistas do MC Eu, Gata e Cão Fiel encararam uma jornada inesquecível pelos caminhos do Marrocos

TEXTO: PAULO GOMIDE

FOTOS: PAULO GOMIDE E JOÃO GUILHERME CUNHA

Cheios de disposição, integrantes do Eu, Gata e Cão Fiel (moto clube da cidade de Macaé, no Rio de Janeiro) decidiram se aventurar pelo Marrocos. Ali, encontraram estradas sinuosas, uma cultura diferente e paisagens encantadoras. A seguir, confira a segunda parte da saga (realizada ao longo de 16 dias e a bordo de 14 motos BMW).

10º DIA – MERZOUGA / BOULMANEDADES: Neste dia, comemorei meu aniversário de 60 anos. Além disso, nosso grupo teve direito à proverbial “cereja do bolo” – encarar as Gargantas do Dades. Na saída das Bivouac, fomos examinar a pequena descida onde a areia era mais fofa, de forma a evitar tombos. Após uma pequena lombada, havia uma trilha mais dura, indicada para motos. Quase todos passaram com sucesso sem cair, porém, quando olhei para trás, um dos nossos atolara! Pena que faltaram fotos para registrar o feito! Deixamos o Deserto do Saara, passando por pequenas aldeias berberes. Depois de algumas horas pela R702 e a N10, chegamos a Tinghir, porta de entrada para o desfiladeiro de Dades. Esta região, também conhecida como Vale de Dades, fronteira com o Saara, é muito importante para a história do Marrocos. É um trecho que vale a pena conhecer. Mais tarde, retornamos à cidade de BoulmaneDades e nos hospedamos em um hotel.

11º DIA – BOULMANEDADES / FEZ: Partimos às 7h15, pois rodaríamos mais de 550 km. Subimos o Atlas, passando pela aldeia de Imilchil e seus lagos, Khenifra e Ifrane. No Marrocos, Ifrane é chamada de “Suíça Marroquina”, em razão do clima mais frio, dos jardins e dos chalés com telhados vermelhos. A cidade está a 1.650 metros de altitude e, durante o inverno, fica coberta de neve, o que atrai muitos turistas para a estação de esqui Michliffen. Seu nome significa “caverna”, o tipo de local que as tribos bérberes habitavam. A descida do Atlas foi tumultuada. Era domingo e a pista de mão dupla estava lotada de veículos, o que atrasou muito a nossa chegada à Fez.

Fundada no século IX, Fez já foi capital do país e é a segunda maior cidade marroquina, ficando atrás apenas de Casablanca. Andar por suas ruas é como voltar à Idade Média, o que pode ser, ao mesmo tempo, mágico e caótico! Saímos do hotel e passamos pelo centro de Fez, seguindo até BorjNord, onde se localiza o Museu de Armas (uma fortificação no topo de uma colina perto das muralhas do norte da cidade). O edifício militar foi construído no século 16 para controlar a Medina e protegê-la contra ataques externos. Com um plano quadrado, que se estende na forma de uma flecha em cada um dos ângulos, o prédio tem um aspecto semelhante ao das fortalezas portuguesas. De lá, pudemos avistar toda a cidade.

Em seguida, partimos para a famosa Medina de Fez, conhecida como Fez El Bali (ou “Fez, a Velha”). É considerada patrimônio cultural da UNESCO, junto às de Marrakesh, Essaouira e Tétouan. Seu perímetro é enorme e foram contratados dois guias para abrir e fechar o grupo, evitando o desencontro de nosso pessoal. Ainda assim, um dos nossos integrantes parou para fazer compras e teve muitas dificuldades para sair. Pediu ajuda e, fora da Medina, os táxis não queriam levá-lo ao hotel (felizmente, um motociclista lhe deu uma carona em sua motoneta). O exotismo é uma característica marcante daquele cenário único e cheio de ruelas labirínticas. Há souqs (mercados) dedicados a cada tipo de atividade: roupas, cerâmicas, tapeçarias, artesanato e alimentação. Outra curiosidade são os curtumes. Nos terraços das lojas, podemos acompanhar o trabalho de funcionários incumbidos de tingir o couro (o cheiro é de embrulhar o estômago, razão pela qual nos são fornecidas folhas de hortelã para serem colocadas sobre o nariz).

12º DIA – FES /TETOUAN: Aqui, iniciamos o nosso retorno para a Europa. Decidimos seguir um caminho mais curto, pelas Montanhas do Médio Atlas. Porém, o trânsito pesado e os ventos fortes tornaram a viagem estressante. As rajadas de vento jogavam as motos em direção aos despenhadeiros e tivemos sorte de nada nos acontecer. Na chegada a Tetouan, o GPS de Miguel (o guia) ficou sem bateria e ele tentou se orientar pelo celular. Fomos parar em uma área desabitada, após as 21h, e todos estavam muito cansados. No dia seguinte, rodaríamos quase 500 km, passando pela fronteira do Marrocos.

13º DIA – TETOUAN / TAVIRA: O trecho até Tanger foi complicado. Mais uma vez, montanhas acompanhavam o litoral marroquino, mas uma neblina intensa dificultou nossa chegada ao porto. Após os trâmites na aduana, perdemos a Ferry Boat e tivemos que aguardar um novo horário, com partida às 15h. Chegamos a Tarifa e tivemos que aguardar a liberação de todos os veículos, o que demorou bastante. Já passava das 17h e tínhamos quase 400 km para rodar. Seguimos em direção a Sevilha e o calor era insuportável – minha moto marcava a temperatura de 39º. Passamos por suas avenidas contornando a grande cidade, e o sol batia exatamente em nossos rostos. O trânsito era muito pesado e nossa referência era a lanterna traseira da moto à frente. Conseguimos nos desvencilhar do tumulto e as estradas bem sinalizadas da Europa nos conduziram a Portugal. Chegamos à noite e nos hospedamos no hotel Vila Galé Albacora. Ali, tivemos uma deliciosa noite “etílica” e gastronômica, com direito a bons vinhos e a iguarias da cozinha portuguesa. Na manhã seguinte, visitamos a charmosa cidade de Tavira, antes de seguirmos para Albufeira.  

14º DIA – TAVIRA / ALBUFEIRA: Este trecho seria bem pequeno – somente 70 km nos separavam de Albufeira, que fica na região do Algarve, em Portugal, e pertence ao distrito de Faro. É um lugar turístico, muito frequentado no verão devido às suas praias. São aproximadamente 30 km de costa, o que contempla a visitantes de toda a Europa (e de outras partes do mundo) muitas opções em cidades para veranear. Ficamos no Hotel Vila Galé Atlantico, localizado junto à Praia da Galé, e os quartos ofereciam varanda com vista para o mar. Como achei o local muito charmoso, tomamos um banho rápido e fomos explorar a região. Saímos de moto e descobrimos que as ruas não são organizadas. Descemos em direção à Praia da Galé, que víamos de nosso quarto – porém, não havia uma linha reta em sua direção. Rodamos um bom tempo pelo litoral e notamos que, na região, residem muitos estrangeiros, principalmente aposentados que apostaram em viver naquele local tranquilo. Após o tour, passei por um mercado e fiquei maravilhado com a variedade de vinhos, frios e queijos em suas galerias. Não resisti: adquiri duas garrafas de vinho, frios diversos e queijo da Serra da Estrela.

15º DIA – ALBUFEIRA / LISBOA: Após 270 km, chegávamos novamente a Lisboa, para a entrega das motos. Deixamos os veículos no estacionamento e, logo, uma van com uma carretinha levou os “nossos” brinquedos para a BOMCAR. O hodômetro marcava 4.899 km (peguei a motocicleta com 600 km rodados). Deixamos as coisas no quarto e fomos ao Mercado da Ribeira. O prédio que o abriga, em frente ao Cais do Sodré, em Lisboa, data do fim dos anos 1800. Conhecido pela oferta de verduras e flores, entre outros itens, o local perdeu espaço quando foi aberto o MARL, Mercado Abastecedor da Região de Lisboa, em 2000. Em maio de 2014, porém, um projeto de revitalização transformou parte do espaço em uma atração imperdível para quem está de passagem pela cidade. Uma área de 5.500 m² do térreo do mercado tornou-se uma grande praça de alimentação com curadoria da edição local da revista “Time Out”. Mais de 30 restaurantes dos mais diversos estilos dividem o espaço, oferecendo desde comida orgânica a gastronomia prêt-à-manger de chefs conhecidos.

Durante o passeio, descobrimos um lugar que vendia os famosos “Bolinhos de Bacalhau” – os melhores que comi em minha vida. Sentamos em um dos balcões internos e consumimos, cada um, ao menos seis bolinhos, acompanhados por um vinho maravilhoso. No hotel, houve o jantar de despedida, uma confraternização belíssima. Nossa partida estava marcada para o outro dia, às 23h, e ainda tínhamos um dia inteiro para aproveitar Lisboa.       

16º DIA – PASSEIO POR LISBOA: Fizemos um roteiro pelo centro, começando pela Rua Augusta, onde fica o famoso arco triunfal, e que conecta a Praça do Comércio à Praça do Rossio. Em seguida, pegamos um Tuk-Tuk e partimos para o Bairro Alto, onde tomamos café em uma praça da qual se avistava o Centro de Lisboa. O Bairro Alto e o Chiado são dois distritos intimamente relacionados, sendo que um é mais popular durante o dia e o outro, mais frequentado à noite. Chiado é o distrito das compras e teatros e conta com uma seleção de monumentos históricos, lojas tradicionais e bons restaurantes. Aproveitamos para dar uma passadinha na Gelado Santini, que oferece os melhores gelados de Lisboa. Depois, seguimos em direção a Brazileira, também conhecida como a “Brazileira do Chiado”. É o mais famoso dos antigos cafés de Lisboa e, no passado, foi ponto de encontro de escritores, artistas e jornalistas. Um de seus mais fiéis clientes foi o poeta Fernando Pessoa, hoje imortalizado por uma estátua de bronze.  

Agradecemos a todo o grupo da Euromototravel por este passeio sensacional. Em breve, agendaremos outras “voltinhas” pelo Velho Continente. Até a próxima!

A MOTO

Achei a ciclística da BMW 1200GSA muito boa. O modelo também possui freios excelentes e uma embreagem macia. Porém, o banco do piloto é muito largo (feito para alemães) e alguns reclamaram de assaduras durante a viagem, assim como o para-brisas não foi capaz de desviar o vento com total eficácia. Os controles de tração para os tipos de terreno enfrentados são bem completos. O sistema de partida sem chave (Keyless Ride) é prático, mas esta comodidade gerou certa confusão. Algumas motos eram idênticas e, após uma parada no deserto para tirar fotos, dois amigos não conseguiram ligá-las de forma alguma. Tudo se resolveu quando perceberam que as motos estavam trocadas!

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