O aventureiro Elson Antonio Gehlen, de Marechal Candido Rondon (PR), fez muitas viagens de moto pelo Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e Bolívia. Mas poucas foram tão emocionantes quanto esta jornada pelo Paraguai, que ele encarou a bordo de uma Honda CB 500X

TEXTO E FOTOS: ELSON ANTONIO

Você, que é motociclista e gosta de pegar estrada, sabe que cada viagem tem algum tipo de dificuldade, como chuva, frio, sol forte, vento, trânsito e outros fatores que podem deixar a aventura um pouco mais “divertida”. Mas nenhuma das expedições que fiz pela América do Sul foi tão difícil quanto esta, com destino ao Paraguai. Tudo começou em uma brincadeira com alguns amigos de Dourados (MS), Edson José Reiter e Cesar Belloni, que levaram o plano a sério e toparam o desafio de atravessar o Paraguai inteiro por estrada de chão.

Discutimos o projeto até que este ganhasse forma e consistência. Depois de muitas deliberações, chegamos à conclusão que seria melhor irmos em agosto, período em que chove pouco e no qual poderíamos atravessar o Chaco Paraguaio mais tranquilamente. Tínhamos um contato na cidade de Filadélfia – Franz, um nativo que conhece bem o Chaco e suas “armadilhas” e que poderia nos orientar. Ele concordou em ser nosso apoio e disponibilizou uma caminhonete Isuzu, de cabine dupla, para nos “escoltar” até Filadélfia.

Saímos de Marechal Candido Rondon e fomos até Dourados pela BR-163, passando por três pedágios (com valores de R$ 2,40 a R$ 3,50). Ficamos na casa do meu irmão, Elairton, e combinei com Edson e Cesar de nos encontrarmos no dia seguinte em um posto de gasolina na saída para Itaporã, na BR MS-156. De lá, seguimos pela MS-157 e pegamos a MS-382 até Porto Murtinho. Por enquanto, tínhamos rodado 767 km. Pela manhã, o tempo estava bem fechado e tocamos com prudência e tranquilidade.

AS “MOTOCAS”

Eu estava com uma Honda CB 500X, e Edson e Cesar, com suas Yamaha Ténéré 250cc. Chegamos a Porto Murtinho por volta das 14h. Franz, seu pai e um tio nos aguardavam. A princípio, dormiríamos em Porto Murtinho, mesmo – mas, como ainda era cedo, resolvemos atravessar para o Paraguai, cambiar Reais por Guaranis e fazer os trâmites na aduana, para podermos adentrar definitivamente o país vizinho. Fizemos uma reserva no Hotel Puerto Maria, por telefone. Lá, pudemos deixar as motos bem nas portas de nossos quartos, com um custo de aproximadamente R$ 60,00 por pessoa, incluindo café da manhã. Pegamos a balsa e atravessamos o Rio Paraguai. Chegamos à Carmelo Peralta e já sentimos o que nos esperava: muita areia solta e estrada de terra.  Mas sabíamos que seria só estrada de chão, sem um palmo de pavimento.

Câmbio feito, passaportes carimbados e com as permissões das motos em mãos, voltamos para o hotel. Falamos muito a respeito do trajeto e ficamos imaginando que poderia ser difícil – ou nem tanto. À noite, Franz veio nos buscar para irmos saborear um belo churrasco assado, oferecido por ele. Jantamos e voltamos ao hotel – queríamos dormir cedo para estarmos dispostos no dia seguinte (pelo mapa, seriam 310 km de estrada de chão). O dia amanheceu lindo e Franz chegou às 08h30. Colocamos toda a nossa bagagem na caminhonete – deixei os alforjes, pois pensei que, se eu caísse, eles protegeriam a mim e à moto.

Sim, verdade seja dita: não sou bom em estrada de terra ou de barro. Eu havia colocado dois pneus borrachudos próprios para areia, e as Ténérés também estavam equipadas com pneus adequados para esse tipo de piso.  Tudo pronto, saímos rumo ao nosso primeiro objetivo, que era chegar à Filadelfia. No início, foi até tranqüilo. Mas, após alguns quilômetros, percebemos que não seria tão fácil assim! Começaram a surgir os “areiões” – a estrada parecia um depósito infinito de areia fofa. Edson foi o primeiro a cair. Felizmente, não foi nada sério, pois rodávamos devagar, em uma média de 40 a 50 km/h.

Parávamos a cada hora para nos alimentar e beber água, pois o calor aumentava conforme as horas passavam. Chegamos à Filadélfia por volta das 15h e fomos direto para o hotel (que nos custou o equivalente a R$ 134,00). À noite, jantamos em companhia de um grupo da Associação Motociclistas de Cristo e fomos muito bem recebidos pelos irmãos. Em seguida, voltamos para o hotel, pois estávamos exaustos. Foram 310 km de muita areia e pó, do tipo “talco”. No dia seguinte, Franz chegou cedo e transferimos toda a bagagem para outra caminhonete, uma Amarokde cabine simples e com uma carroceria maior. Desse modo, ele pode levar mais coisas, como gasolina, óleo diesel, cadeiras de praia, comida e muita água.

TUDO O QUE DESCE, TEM QUE SUBIR!

Demos continuidade ao nosso projeto e as dificuldades foram surgindo ao longo do caminho. Quando faltavam 50 km para chegar, confesso que estava sem energia. Pedi a Deus que me desse uma oportunidade de gastar as reservas e, assim, seguimos rumo a Pozo Hondo, que parecia não chegar nunca. Faltando 10 km, minha Honda afundou em um atoleiro de pó – balança, pedaleira e corrente ficaram “soterrados”. Precisamos de quatro amigos para empurrar, comigo em cima da moto, acelerando. Até que nos divertimos com a situação.

Por fim, chegamos ao quartel da aeronáutica de Pozo Hondo. Um soldado nos parou, anotou os nomes e placas de nossas motos e disse que podíamos seguir em frente. Faltavam mais cinco quilômetros até a divisa. Prosseguimos e avistamos a bela ponte Internacional Mission La Paz, fronteira com a Argentina. Foram mais 321 km de estrada de chão, com muito pó e areia. Total até chegar a Pozo Hondo: 631 km de pilotagem. Ajoelhei ao lado da moto e agradeci a Deus por me permitir realizar esse desafio. Também agradeci aos amigos Edson e Cesar pela parceria e abracei Franz, Carlos e Wilmar, que foram nossos guias e anjos protetores nesta aventura.

À beira do rio, armamos nossas barracas e preparamos o jantar. Armar barraca à noite é complicado, mas tudo deu certo. Wilmar fez um belo churrasco, que saboreamos com pão e refrigerante. Depois, ficamos batendo papo e rimos muito das situações que enfrentáramos.

À meia-noite, acordei e puxei a coberta. Já estava esfriando, mas a coisa piorou às 04h. O vento era tão forte que quebrou algumas varetas da barraca. A solução foi levantar e esperar o dia clarear. Às 05h, todos já estavam em pé, com as barracas “amassadas” dentro da sacola – não dava para dobrar, por causa do vento. Franz consertou o radiador da KLR e iniciamos a volta. Mas, como o tempo estava fechado, decidimos pegar um caminho alternativo com asfalto – se chovesse, não teríamos como seguir, por conta do barro. Carlos nos deu a alternativa de irmos até a divisa com a Bolívia para pegar o asfalto, o que aumentaria nosso percurso em 150 km, mas pegaríamos apenas 100 km de chão na volta. Todos concordaram, já que a autonomia das motos Ténérés e CB500X é de 400 km com um tanque e tínhamos levado 60 litros de gasolina de reserva. Fizemos as contas e vimos que dava para voltar pelo asfalto sem a preocupação com uma pane seca.

Tudo resolvido, encaramos mais 100 km de estrada de chão – metade deles com muito pó, e os outros 50 km de chão batido até o asfalto. Quando chegamos ao asfalto, Edson desabou e ficou deitado por uns 10 minutos, se recuperando. Abastecemos e seguimos rumo à Mariscal José Felix Estigarribia. Andamos 5 minutos no asfalto e começou a chover. Mais uma vez, comprovamos que Deus estava conosco! Paramos em um posto de gasolina, completamos o tanque, e foi aí que a moto de Carlos caiu com a força do vento. Tomamos um café quente e seguimos viagem embaixo de chuva até Filadelfia. Paramos no mesmo hotel onde nos hospedáramos na ida. Tomamos banho, descansamos e jantamos no próprio hotel.

No dia seguinte, a chuva não deu trégua. Mesmo assim, rodamos até a fronteira, em Pedro Juan Caballero e Ponta Porã. Fizemos os trâmites de saída e, nesse momento, o “bicho” pegou: ainda eram 17h30, mas já estava escuro e havia muita neblina. Eu queria chegar até Amambaí, enquanto Edson e Cesar queriam chegar a Dourados. Assim, no dia seguinte, eu estaria mais perto de casa. Rodei devagar e com muita atenção, pois a visibilidade era péssima (por sorte, tenho um farol auxiliar que foi muito útil naquela situação).

Pela manhã, levantei cedo, tomei café e segui viagem até minha casa, aonde cheguei às 13h30. Nem desarrumei as mochilas – eu precisava descansar! Assim foi a Expedição Chaco Paraguaio/Bioceânica. No total, foram 2.757 km percorridos. Cumpre ressaltar que a Honda CB 500X e as Ténérés foram grandes companheiras de aventura!

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