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Parte I

Teiga Júnior foi o primeiro motociclista brasileiro a pilotar pelas montanhas tibetanas e nos conta como foi a experiência de encarar altitudes extremas, frio intenso e a constante vigilância militar.
Texto e Fotos: Teiga Júnior

Ser o primeiro motociclista brasileiro a rodar pelo Tibete e o primeiro a chegar de moto no Campo-Base do Everest foi um desafio e tanto e que dedico a todos os motociclistas aventureiros que atingem um sonho – e assim foi o meu.

Um planejamento forte foi necessário para poder atingir o objetivo que se iniciou em 2011, dois anos antes, quando eu estava viajando com a mesma operadora (Edelweiss Bike Travel – sendo a Melbourne Tour Operator de São Paulo a agência que fez essa transação no Brasil), pela Austrália. No final da aventura um dos guias mostrou o novo desafio da operadora em rodar pelo Tibete e que estavam iniciando com uma primeira turma no ano seguinte.

Não parei mais de pensar nisso: foi a mesma conexão que tive quando decidi fazer a Antártida em 2009, uma viagem nada fácil e cheia de muitas dificuldades para se obter as autorizações. Lembrando que primeiramente a vacina da febre amarela é obrigatória para entrar no país; seu passaporte precisa ter no mínimo 6 meses antes de acabar a validade e eu não dependia apenas do visto chinês para entrar: também precisaria de uma autorização para que pudesse entrar na região do Tibete. Autorização essa no primeiro momento em forma de convite de uma agência chinesa para que pudéssemos conhecer o Tibete. Para podermos pilotar por lá, só depois de uma palestra em tibetano e traduzida para o inglês.

A segunda parte do planejamento foi a física. Estar preparado para ficar por um bom tempo a uma altitude acima dos 3.500 metros com alguns momentos a mais de 5.000 facilmente, é fundamental. Medicamentos para aumentar a taxa de hemoglobina no sangue, exercícios de reforço muscular, além dos exercícios respiratórios, não evitaram o mal-estar das primeiras 48 horas, principalmente nos momentos de estrada mais off-road. Adiciono aqui também o uso de tubos de oxigênio que ficavam nas enfermarias dos hotéis para os turistas menos preparados ou mais desavisados.

Outros momentos que considerei preocupantes, foram nos pontos de fiscalização nas estradas, onde por duas vezes, tivemos revistadas nas fotos e vídeos, já que o local é altamente disputado também pela Índia e Paquistão.

Considero isso algo preocupante para qualquer turista que queira ir viajar por lá, pois tirar fotos de artefatos militares, como vimos circulando pelas estradas, com tanques e mísseis de grande alcance ou até mesmo de policiais na cidade de Lhasa, poderia ser enquadrado como espionagem e simplesmente você desaparecer para o mundo – e não pense que isso não acontece!

Um dia chegando em Langxian, não queriam nos deixar pernoitar no hotel da pequena cidade, mesmo com a reserva já feita e paga pela agência chinesa. Após muita negociação e horas parados na entrada da cidade, nos deram permissão para ficar até as 6 horas da manhã seguinte, quando então, lá estavam os militares, nos tirando dos quartos e fazendo-nos tomar café no pátio do hotel. 

Outro exemplo: fomos proibidos de abastecer nossas motos diretamente nas bombas; fazíamos isso usando galões e sempre com autorização de um policial que nos acompanhava nesse momento.

Foram 10 dias no total e 8 dias rodando, com o início e término em Lhasa, e 2.740 km percorridos por entre templos, mosteiros e o lindíssimo e insuperável na história do Tibete, o Palácio de Potala.

Dia 20/05/2013 – chegada ao Tibete – Lhasa – 3.700 metros altitude

A primeira impressão que tive, foi que estávamos em um lugar semelhante aos belos altiplanos chilenos, pois a paisagem é muito parecida, com a diferença mesmo na altitude. O policiamento nas ruas de Lhasa é intenso e fomos recomendados a estar sempre com o passaporte e a não tirar fotos de forma alguma de qualquer aparato militar ou de militares.

Dia 21 – Visita ao Palácio de Potala e ao Templo de Jokang

O Palácio de Potala foi a principal residência do Dalai Lama, até que o 14º precisou fugir para Dharamsala, Índia, depois da revolta comunista, em 1959. Atualmente o palácio é um museu estadual da China. Construído a uma altitude de 3.700 metros, suas vastas muralhas interiores são apenas interrompidas nas partes superiores por filas retas de muitas janelas e tendo telhados planos em vários níveis, não é diferente de uma fortaleza na sua aparência.

O Templo ou Mosteiro de Jokang é um dos mais famosos templos budistas de Lhasa. É o centro espiritual da cidade e talvez, sua mais famosa atração turística. É um edifício de quatro andares, com telhados cobertos com telhas de bronze dourado. O estilo arquitetônico é baseado no Vihara design indiano. É um centro de peregrinação sagrado bem no centro de Lhasa, altamente controlado, principalmente na semana em que estávamos por lá.

Dia 22 – A aventura se inicia. Volta ao lago Nanco (4.816 m) – 450 km

Com todos motivados e atentos às regras já comentadas pelos guias e ainda me acostumando com a altitude, começamos a perceber o que iríamos ver por aqui nesse altiplano cheio de montanhas. Tudo era novidade para nós e tínhamos que lentamente nos movimentarmos para podermos apreciar tudo em nossa volta. As famosas bandeiras tibetanas estavam em todos os lugares ofertando prosperidade e harmonia nas nossas vidas.  Também nesse dia já avistamos os famosos iaques, um gado específico da região.

Chegando ao topo das montanhas, antes de descer para o Lago Nanco, o frio e a neve pegaram forte, mas estávamos felizes e determinados em ver o lago mais alto do mundo, com seus 4.816 metros.

Mesmo com frio e com o ar rarefeito testando nossos pulmões, eu não conseguia conter a minha felicidade de estar realizando mais um grande sonho: naquele momento estava superando o meu recorde de altitude, pois a maior que já havia enfrentado foram os 4.970 metros na carretera “Abra del Acai”, na Ruta 40 (Cordilheira dos Andes). No paso de Lhachen-La, eu já estava nos 5.190 metros e sabia que iria ter muito mais.

O tempo virou e experimentamos a nossa primeira tempestade tibetana, leve, mas assustadora, pois poderia ser mais forte já que lá as tempestades são conhecidas pela sua força. A volta foi feliz, mas pesada, pois a altitude fazia nossas cabeças latejarem, mas foi incrível ver picos acima dos 7 mil metros ao longo do Himalaia. 

Dia 23 – Lhasa à Ba Yi (3.000 m) – 410 Km

Finalmente saímos de Lhasa para percorrer o interior do Tibete, sentido sudeste. A temperatura de 10oC no início ia caindo bruscamente nos passos entre as altíssimas montanhas, chegando a temperaturas negativas rapidamente como no passo de Pa-La, com os seus 5.019 metros.

As mesmas particularidades no abastecimento continuaram, assim como as paradas para a apresentação dos documentos nas barreiras.

Neste dia, encontramos um grupo de nômades tibetanos chamados  Drokpas, e o seu modo de vida em extinção.

As estradas estreitas e cheias de muitas curvas não permitiam vacilar, mas como se não bastasse, ainda cruzávamos com iaques, cavalos, porcos, cachorros, além de pessoas e veículos que a toda hora nos tiravam do percurso normal.

Dia 24 Ba-Yi à Langxian (3.100 m) – 250km

Já acostumados a estar nesse regime político, neste dia não pudemos sair cedo, pois tínhamos que esperar a autorização para podermos rodar nessa delicada região de fronteira com a Índia na maior parte de seu trajeto.

Vimos uma fila de caminhões com tanques e mísseis. Realmente é uma zona muito militarizada e foi nesse dia que fomos pela primeira vez abordados e revistados, principalmente quanto à fotos e filmagens: foi muito tenso.

Nosso grupo tinha oito americanos, famílias por sinal, mas era um estresse. O Brasil então, para alguns, era perto do Vietnã e também muito perigoso. Soubemos de histórias de pessoas que foram “acusadas” de espionagem pelo governo chinês e que estão até hoje mofando em algum presídio e sendo “esquecidas” ou citadas como “desaparecidas” pelo governo chinês. 

Já sabíamos que éramos vistos como estranhos por aqui, mas quando nos deram a autorização que nos chamava de “ALIENÍGENAS”, eu percebi a seriedade do momento.

Começamos a acompanhar o Yarlung Tsangpo, o mais poderoso e importante rio no Tibete, pois além de irrigar todo o país, proporciona um dos mais belos espetáculos de uma viagem de moto. Além de ter uma ótima estrada pavimentada, quase ninguém estava andando nela, mas certamente não podíamos relaxar por conta dos animais, que eram muitos.

Foi nesse dia que enfrentamos o estresse para entrar na cidade de Langxian.

Em nossa próxima edição, você acompanha a segunda parte desta viagem incrível!

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