Uma rota inédita, com novo percurso acabando em Mato Grosso do Sul, marca a histórica edição de 25 anos do Rally do Sertões

Texto: Doni Castilho
Fotos Doni Castilho/DFOTOS, Gustavo Epifânio, Victor Eleutério e Marcos Barros

Rally do Sertões

Du Sachs, diretor-técnico da prova, já anunciava durante a entrevista coletiva oficial: “A edição dos 25 anos de Rally dos Sertões será histórica, e não é apenas força de expressão! É pelo alto nível técnico e elevado grau de dificuldade”. E realmente foi o que aconteceu. Desde sua primeira especial, uma das primeiras etapas mais duras da história da prova, até o final eletrizante em Bonito, em Mato Grosso do Sul, o rally percorreu 3.300,06 quilômetros, sendo 1.999,52 quilômetros de especiais (trechos cronometrados).

Outra característica dessa edição foi a etapa maratona (na qual os competidores não podem receber auxilio externo ao fim do dia) já na segunda etapa. Com a maratona sendo no começo, muda a dinâmica da prova. “Tem de acelerar tudo desde o primeiro quilômetro e assumir os riscos” definiu bem o piloto Cristian Baumgart.

Para o gaúcho Gregório Caselani, atual campeão na categoria motos, a prova seria dura e imprevisível. A única certeza que ele tinha é que seu time brigaria pelo título. “Vamos para cima para defender o título como uma equipe”, atestou Gregório, piloto da equipe Honda Racing.

O Rally dos Sertões teve 280 participantes e foi disputado por 161 veículos, moto, UTV’s e quadriciclos, e nas categorias carros (cross country e regularidade), além dos integrantes da expedição Sertões (essa, por enquanto, aberta apenas para carros).

Prólogo

A prova começou no dia 19 de agosto, com um prólogo de apenas 6 quilômetros realizado na Cidade Alpha Goiás, em Senador Canedo, próximo a Goiânia, capital de Goiás, de onde o Sertões tem partido desde 2002.

O prólogo serviu para definir a ordem de largada e, como era bem curto (apenas 6 km), muitos dos pilotos não se arriscaram, afinal, o rally ainda teria cerca de 3.000 km pela frente. Mas nem todos pensaram assim e, entre curvas sensacionais, houve até um incrível capotamento do UTV. Ao final, José Hélio venceu nas motos, Marcelo Medeiros ganhou a disputa nos quadriciclos e a dupla Deninho Casarini/Luis Ekel faturou nos UTV’s.

O piloto José Hélio, dono de cinco títulos do Rally dos Sertões na categoria motos (o último em 2009), deixou de correr profissionalmente em 2012 e participou da competição apenas por hobby.  “Andei por prazer. Estou aqui para me divertir. Diversão, satisfação e chegar bem a Bonito (MS). É nisso que eu penso”, declarou o piloto.

Marcelo Medeiros, nos quadriciclos, festejou o resultado. “Começou o Rally dos Sertões. Fizemos um ótimo prólogo, deu para verificar os ajustes que fizemos na suspensão e está tudo certo. Agora é concentrar para a primeira especial que é neste domingo”, disse.

1ª etapa (20/08)
Goiânia (GO) a Goianésia (GO)

Total do dia: 680,48 km – trecho cronometrado: 306,82 km

O roteiro seguiu primeiramente para o norte de Goiás, para a cidade de Goianésia. Nesse primeiro dia foram 680,48 quilômetros, dos quais 306,82 cronometrados. Uma prova de fogo logo no começo do rally, com travessias de nada menos que oito rios, entre eles o temível Rio Bagagem.

Gregório Caselani, piloto oficial Honda e atual campeão do Rally do Sertões, venceu essa etapa e relata um pouco dessa odisseia: “Foi uma etapa muito dura, como a organização já havia dito. Mas, se tem uma coisa que a Honda se destaca é na confiabilidade e na durabilidade. E está aí a prova. Em 680 quilômetros, chegamos bem ao final e conseguimos abrir uma boa vantagem, que é muito importante para começar bem um rali duro como este”, afirmou o piloto gaúcho.

George Ximenes, do Ceará, venceu entre os quadriciclos. A dupla Denisio Nascimento/Emílio Rockembach ficou em primeiro nos UTV’s.

2ª Etapa (Maratona) – (21/08)
Goianésia (GO) a Santa Terezinha de Goiás (GO)

Total do dia: 373 km – trecho cronometrado: 248 km

A segunda etapa da prova, entre Goianésia e Santa Terezinha de Goiás, foi mais tranquila do que a anterior. Mas, como era etapa maratona (a noite os competidores não poderiam receber apoio dos mecânicos), todos tiveram que administrar bem a tocada. Afinal, teriam que encarar o dia seguinte praticamente sem manutenção.

Mesmo assim, vários competidores enfrentaram problemas. Nas motos, por exemplo, José Hélio abandonou a etapa, com quebra no cubo da roda traseira. Gregorio Caselani, líder na categoria motos, chegou a atropelar uma vaca, mas saiu praticamente ileso, apenas com dores no corpo e alguns arranhões.

O experiente piloto Jean Azevedo (Honda) venceu a segunda etapa seguido pelo catarinense Ricardo Martins (Yamaha). Nos UTV’s o primeiro posto ficou com a dupla Lucas Barroso/Breno Rezende (Can-Am), e entre os quadriciclos, a vitória ficou com o maranhense Marcelo Medeiros.

3ª Etapa (22/08)
Santa Terezinha de Goiás (GO) a Aruanã (GO)

Total do dia: 306 km – trecho cronometrado: 297,12km

A etapa começou bem rápida, por estradas de alta velocidade. Depois voltou a ter trechos mais travados e sinuosos passando por muitas fazendas, com o piso predominante de cascalho e estradas de piçarra. No meio da especial, a prova ficou mais solta e seguiu no último trecho com longas retas e alta velocidade até o final.

Nesse dia, Jean Azevedo ganhou sua segunda etapa consecutiva e subiu para a vice-liderança nas motos, atrás apenas de seu companheiro de equipe Honda, Gregorio Caselani.

Entre os quadriciclos, Medeiros também foi mal no primeiro dia e buscou a recuperação com nova vitória. E o primeiro posto nos UTV’s foi conquistado por Henrique Gutierrez/André Munhoz.

4ª Etapa (23/08)
Aruanã (GO) a Barra do Garças (MT)

Total do dia: 471,34 km – trecho cronometrado: 273,20 km

A especial teve seu início com trechos muito rápidos em piso misto de piçarra, cascalho e areia. Enfim, o Rally dos Sertões adentrou no Mato Grosso pela cidade de Cocalinho, passando entre fazendas e trechos de savanas onde foi exigido um uso de GPS para fazer a navegação. Embora boa parte desse trecho tenha sido cancelado na noite anterior, o desafio de andar pelas savanas por GPS foi um dos atrativos dessa edição.

Jean Azevedo ganhou a terceira seguida nas motos, mostrando que a dura preparação para essa prova surtiu efeito. Já Vinicius Rosa/Gustavo Rosa faturaram o primeiro lugar nos UTV’s, mostrando o grande equilíbrio desta categoria, e George Ximenes venceu nos quadriciclos, mostrando que nada estava definido entre os quadris.

Rally do Sertões. Foto: Doni Castilho

5ª Etapa (24/08)
Barra do Garças (MT) a Coxim (MS)

Total do dia: 666,01 km – trecho cronometrado: 438,86 km

Essa foi a especial mais longa da edição de 25 anos do Rally dos Sertões. A prova começou com estradas de piçarra bem sinuosas, seguiu por regiões de reflorestamento, e por algumas serras até alcançar uma área agrícola com longas retas proporcionando alta velocidade aos competidores, mas logo a prova ficou travada novamente. Trechos de trial, com muitas pedras. Depois da pedreira, o final da especial foi com muitas curvas e trechos de média e alta velocidade.

E o Rally dos Sertões entrou no Mato Grosso do Sul com mudança de líderes em duas categorias. Nas motos, com uma nova vitória, Jean Azevedo assumiu a ponta e nos UTV’s, Bruno Varela e João Arena subiram para primeiro lugar, apesar da vitória da etapa ter ficado com s dupla Ismar Junior/André Sá. Já entre os quadris, Diogo Zonato venceu e mantém a liderança na categoria.

Rally do Sertões. Foto: Gustavo Epifânio

6ª Etapa (25/08)
Coxim (MS) a Aquidauana (MS)

Total do dia: 429,45 km – trecho cronometrado: 194,91 km

A sexta especial do Rally dos Sertões teve um início travado e duro. Trechos de piçarra com muitas pedras e lombas foram predominantes. Na segunda parte da especial, após a descida da serra, a prova seguiu por estradas mais planas, com um visual inesquecível, e continuou rápida até o final.

Entre as motos, vitória de Gregorio Caselani, com 2h13min52, seguido por Marco Pereira, da equipe Zema Rally Team. Nos UTV’s, a dupla Lucas Barroso/Breno Rezende venceu novamente, com 2h11min44. E entre os quadriciclos, vitória de Marcelo Medeiros com 2h23min30.

Com isso, a disputa pelo título da edição de 25 anos seguiu indefinida em todas as categorias. Faltando apenas 240,45 km para terminar, o panorama da prova era esse: nos UTV’s, Lucas Barroso/Breno Rezende estavam 2min24 à frente de Bruno Varela/João Arena. Nos quadriciclos, George Ximenes tinha apenas 38 segundos a menos que Diogo Zonato. Nas motos, Jean Azevedo estava mais tranquilo, com 1h36min26 de diferença para Gregorio Caselani.

Rally do Sertões. Foto: Doni Castilho

7ª Etapa (26/08)
Aquidauana (MS) a Bonito (MS)

Total do dia: 420,78 km – trecho cronometrado: 240,45 km

Para fechar a edição dos 25 anos com chave de ouro, a organização preparou uma especial digna do que se espera para encerrar uma edição comemorativa como essa. Predominantemente disputada dentro da Fazenda Bodoquena, a etapa exigiu muito das máquinas e dos pilotos. Começando bem rápida, seguiu por trechos bem sinuosos. Depois, por trechos de trial com muitas pedras. E nos últimos quilômetros, a prova voltou a ficar rápida até a chegada.

Nos UTV’s, a disputa foi acirrada e só se definiu no último trecho, quando Bruno Varela e João Arena garantiram o título, com 7 minutos de diferença para Lucas Barroso e Breno Rezende, que terminaram em segundo. “Este é um momento muito feliz e histórico. Gostaria de agradecer muito o meu navegador João Arena, que durante todo o percurso ajudou a me controlar”, afirmou Varela.

Nos quadriciclos, Diogo Zonato  e George Ximenes iniciaram a última etapa do Rally dos Sertões com uma diferença de pouco mais de 30 segundos. No final, deu Zonato, que quase não acreditou na conquista. “Achei que tinha perdido o título, pois não fui bem na primeira parte da especial. Acelerei muito na segunda metade e quando conclui, fui parabenizar o George Ximenes. Aí fiquei sabendo que eu tinha sido campeão”, contou Diogo.

Já nas motos, Jean Azevedo, que já era o maior vencedor do Rally dos Sertões entre as motos, ampliou o número de títulos e agora tem 7. “Foi um rali diferente. Eu comecei com um grande prejuízo logo na primeira etapa, com um furo no radiador da moto. Mas, não desisti, estava muito bem preparado e consegui ir tirando a diferença a cada etapa, numa disputa muito boa com o Gregorio Caselani, que é um excelente piloto e, com certeza, chegaríamos na última etapa disputando essa liderança. Infelizmente ele teve um problema mecânico (na quinta etapa). De qualquer forma, fechamos em primeiro e segundo e toda a equipe Honda está de parabéns”, disse o piloto, que anteriormente já havia vencido em 1995, 2000, 2002, 2004, 2005 e 2015.

Destaque também para o piloto Bruni Leles, que disputa sua primeira temporada de rally e conquistou o 3º posto na geral. E Júlio ‘Bissinho’ Zavatti que ficou em 4º na geral com uma Honda CRF 230.

Rally do Sertões. Foto: Doni Castilho

Emoção garantida

Descrever o Rally do Sertões como um desafio é como “chover no molhado”. Mas, o que é preciso salientar é que o desafio não é só dos competidores que disputam os títulos principais. Ele se estende aos mecânicos, que viram as noites em meio a um box improvisado para recuperar os veículos, aos integrantes das equipes técnicas que fecham o percurso para proporcionar segurança aos competidores, aos cozinheiros das equipes que lutam para prepararem da melhor forma possível a comida do dia, aos motoristas dos caminhões que conduzem seus enormes veículos em meio à estradas precárias e, muitas vezes de terra, aos voluntários da equipe de cenografia que montam em tempo recorde todas as placas, banners e pórticos nas cidades por onde passa o rally.

O desafio se estende, também, aos paramédicos e socorristas, chefes de equipe, comissários desportivos e técnicos, secretária de prova, captadores de patrocínios, jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas e, é claro, ao piloto privado que batalha, e muito, para estar no rally. Luta como um leão para chegar e comemorar mais que uma prova, mas a realização de um sonho. E esses desafios estão sendo realizados de forma quase épica, há 25, anos por milhares de pessoas que veem no rally algo muito além de uma simples competição. Que venham os próximos 25!

Classificação final do Rally dos Sertões 25 Anos:

Motos

1º Jean Azevedo 24h49min12

2º Gregório Caselani 26h29min11

3º Bruno Airton Leles 27h21min18

4º Júlio ‘Bissinho’ Zavatti 27h21min56

5º Luciano Gomes 27h22min56

UTVs

1º Bruno Varela/João Arena 25h38min22

2º Lucas Barroso/Breno Rezende 25h46min19

3º Ismar Júnior/André Sá 26h08min06

4º Edu Piano/Solon Mendes 26h14min11

5º Marcelo Gastaldi/Claudio Silveira 26h20min16

Quadriciclos

1º Diogo Zonato 27h38min44

2º George Ximenes 27h40min31

3º Milton Martens 30h33min46

4º Pedro Costa 33h58min05

5º Geison Belmont 39h52min56

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