Pilotando até Aiuruoca, sul de Minas Gerais

Ao sul de Minas Gerais, Aiuruoca é um bom destino para quem curte a natureza

Texto e fotos: Rodrigo Octávio Tristão de Almeida

Quando se olha o mapa e toma-se a decisão de viajar para a pequena cidade de Aiuruoca, ao sul de Minas Gerais, logo se pensa em desbravar, de moto, as estradas de terra ao redor da Serra da Mantiqueira, região abençoada por montanhas imponentes, vales surreais, grandes cachoeiras e vegetação exuberante. Mas, uma vez lá, será que as coisas realmente são assim? Para tirar a prova dos nove, nosso colaborador, Rodrigo Octávio de Almeida, colocou sua moto na estrada e partiu para Aiuruoca, nome que, em Tupi-Guarani, significa “toca do papagaio”.

DESTINO

Aiuruoca dista 415 km de Belo Horizonte (MG), 386 km de São Paulo (SP), 319 km do Rio de Janeiro (RJ) e 180 km de Juiz de Fora (MG). Fui para lá fui com uma Yamaha XTZ Ténéré 250. Gosto desta máquina, pois sua agilidade e leveza permitem a exploração em estradas de terra com grau de dificuldade considerável, além de ter uma boa performance no asfalto. Tanto que seu rendimento, nesta trip, foi de 27 km/l, em velocidade de cruzeiro (100 km/h).

Antes de falar sobre a região, vale citar que o trajeto para Aiuruoca fica no permeio de curvas deliciosas, em serras intermináveis. Não dá para desenvolver uma média de velocidade alta, pois as pistas são simples e o trânsito de caminhões impede o avanço ligeiro. Assim, a distância que poderia ser percorrida em cinco ou seis horas em uma estrada como a Rodovia dos Bandeirantes (SP), por exemplo, acaba tomando o dia todo. Também vale citar que, ao realizar esta viagem, o calor beirava o insuportável. Em um termômetro da cidade de Ipuiuna (MG), avistei a marca de 43 graus centígrados.

PASSEIOS

Quando cheguei a Aiuruoca, observei aquelas ruas de paralelepípedo, típicas do interior mineiro. São ruelas charmosas, mas, para os motociclistas, podem se tornar uma armadilha, ainda mais, após uma chuva que as deixe muito escorregadias. Reparei que não havia indicativos claros de pousadas. Assim, rodei pela cidade e fui perguntando sobre possíveis lugares para dormir. Por fim, encontrei uma pousadinha no centro. Vale citar que, nesta região mais central, há aproximadamente cinco opções de hospedagem.

Depois, fui ao Centro de Informações Turísticas, que fica na praça em frente à Igreja Matriz. Lá, obtive informações sobre passeios. Destes, recomendo dois: o primeiro é para a cachoeira dos Garcias e o segundo, para a Vila de Matutu.

CACHOEIRA

A cachoeira dos Garcias fica a 18 km da cidade, vencidos por uma estradinha de terra, relativamente boa. Apenas ao final, quando a cachoeira se aproxima, surgem algumas dificuldades, como um desnível acentuado e algumas pedras. Em certo momento, precisei descer da moto e traçar mentalmente a trajetória, para passar por uma ribanceira que se formara por causa das chuvas. Mas isto dá sabor à aventura. Indo devagar, passa-se por vários obstáculos. A cachoeira dos Garcias é maravilhosa! Sua imponência reverbera no meio da serra. O barulho, misturado ao coro de pássaros e ao toque do vento, é um deleite para os que descem à margem do rio. Ela fica no território do Parque Estadual da Serra do Papagaio.

Embora não exista uma entrada “clara” para a área do parque, há uma placa sinalizadora dando conta de que adentramos o lugar. Cheguei cedo, imaginando que as primeiras luzes do dia seriam as melhores para fotografar a queda d’água. O sol atinge diretamente a cachoeira apenas na hora do almoço. O contraste de luzes proporcionou imagens arrebatadoras. A luz incidia sobre as folhas ao redor da cachoeira, deixando o curso da água fora do facho solar direto. O branco da espuma na sombra produz um efeito de paz e relaxamento.

Fiquei três horas ao pé da cachoeira. Fotografei e curti o lugar em silêncio, tentando absorver aquele magnetismo poderoso. Depois, subi a trilha e conheci o rio na parte de cima.

CHUVA

Na hora do almoço, comecei a voltar para Aiuruoca. De repente, o céu ficou cinza e uma forte chuva desabou. Cheguei a Aiuruoca e parei em um restaurante em frente à Praça da Igreja, onde almocei calmamente, enquanto ouvia o barulho da água caindo.

A chuva durou uma hora. Apesar de o céu estar nublado, decidi pegar a estrada de terra para a Vila de Matutu. São 18 km, em uma estradinha que dá gosto. Em alguns momentos, surgem imagens impressionantes do Pico do Papagaio e de cachoeiras gigantes.

A estrada estava molhada e muito lisa. Às vezes, era preciso ser bastante cauteloso: parecia que tudo era um enorme sabonete! Algumas subidas e descidas íngremes, neste tipo de terreno, podem ser traiçoeiras.

VILA DE MATUTU

Ao chegar à Vila de Matutu, deparei-me com um casarão rodeado por flores (podadas com muito esmero). Quem toma conta desse lugar é um homem chamado Lázaro. Não avistei casas. Fiz algumas perguntas a Lázaro sobre cachoeiras e passeios. Por fim, resolvi voltar no dia seguinte, de manhã, quando o bom tempo me permitiria fotografar com luzes diretas o Pico do Papagaio e as cachoeiras.

Perguntei onde ficavam as casinhas da vila. Educadamente, me disseram que não havia motivo para conhecê-las, pois eram apenas casas de moradores, sem atrativos para quem vinha de fora. Notei que havia certa resistência, por parte dos habitantes, em mostrar a vila a eventuais visitantes. Mesmo assim, peguei a moto e comecei a subir a estradinha de terra. Avistei uma placa: “Área residencial – Acesso restrito”.

Obviamente, respeitei o aviso. Se alguém tivesse me convidado a adentrar aquele mundinho particular, certamente eu teria interesse em fazê-lo. A título de curiosidade: em Tupi, “matutu” significa “nascente” ou “cabeceira sagrada”.

PICO DO PAPAGAIO

Retornei a Aiuruoca, onde passei a noite, e regressei à Vila de Matutu na manhã seguinte. O céu era de um azul saturado e as luzes matinais adornavam o cume do Pico do Papagaio. Assim que cheguei ao povoado, fui à cachoeira das Fadas, onde fiquei por algumas horas. A água esverdeada e translúcida convidava para um mergulho. Mas não tive coragem. Embora fosse pleno verão, com temperaturas altas durante o dia, a água estava geladíssima.

Na hora do almoço, o tempo começou a mudar de forma assustadora. As montanhas, antes emolduradas pelo azul celeste, se tingiram daquele cinza-escuro, prenunciador de tempestades. Não sabia se conseguiria chegar a Aiuruoca antes da água cair. Então, decidi almoçar no Restaurante da Tia Iraci, um quilômetro dentro da área da vila. Lázaro deu-me as dicas da trilha e fui até lá, caminhando. Por fim, avistei algumas casinhas e o restaurante caseiro, decorado com muito bom gosto. Tia Iraci me deu as boas-vindas, muito simpática. Logo, a chuva forte caiu, assim como a temperatura.

A comidinha de fogão à lenha veio à mesa enquanto eu observava a cor “estarrecedora” do céu. Fiquei imaginando a situação da estrada na hora de voltar.

Após a chuva, que durou uma hora e meia, peguei o caminho de volta pela trilha.

UMA VOZ E UM VIOLÃO

Aproximei-me do casarão e ouvi uma voz adocicada, embalada pelos acordes de um violão. Lá estava Camila, uma estudante, pesquisadora social e pensadora, sentada em um cantinho, celebrando aquela beleza natural com sua arte. Indaguei se podia ficar ouvindo e ela assentiu. Depois, conversamos. Ela me perguntou se eu conhecera a comunidade da vila. Expliquei que não conseguira muito contato com os moradores. Eventualmente, descobri que, dentro da comunidade de Matutu, há um grupo que segue os preceitos da doutrina do Santo Daime. Nem todo mundo da Vila de Matutu, porém, é seguidor da doutrina. A comunidade de Matutu prima pelo respeito à natureza. Não se vê lixo ou poluição de qualquer tipo, seja visual ou sonora. As pessoas parecem viver em harmonia com o meio-ambiente. Foi a primeira vez que tive contato com uma cultura assim.

VOLTA

No dia seguinte, retornei a São Paulo, acelerando e deitando a moto nas prazerosas e infindáveis curvas da Serra da Mantiqueira. Sentia-me grato por ter feito aquela curta viagem, paradoxalmente, riquíssima em “conteúdo”. Vivenciar o “novo” é sempre bom. E o melhor de tudo é que, para usufruir destas novidades, tudo o que temos a fazer é tirar a moto da garagem.

RAIO-X DA VIAGEM

Moto: Yamaha XTZ Ténéré 250 cc

Quilometragem percorrida: 1.000 Km

Consumo: 27 km/l

Duração da viagem: quatro dias

Gasto total, incluindo almoço, hospedagem e gasolina: R$ 375,00

Pousada em Aiuruoca: R$ 50,00

Refeição em Aiuruoca: R$ 15,00

Refeição no Restaurante da Tia Iraci (Matutu): R$ 25,00

*Matéria publicada na edição #159 da revista Moto Adventure.

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