Viagem de moto pela França

Casal de São Paulo percorre 1.700 km de estradas francesas conhecendo lugares como Paris, Champagne, Ardenne, Vale do Rio Loire, Honfleur e Étretat

Texto: Marcelo Guaranha
Fotos: Cínthia Guaranha e Marcelo Guaranha

Marcelo Guaranha e sua esposa Cínthia são residentes em Barueri, na Grande São Paulo, e a história do casal no motociclismo não é das mais antigas. Marcelo comprou sua primeira moto em 2008. Na época, sua Suzuki Bandit 650 era mais usada para pequenas viagens de final de semana.

Em 2012, buscando algo “diferente” sobre duas rodas ele resolveu fazer um tour de 15 dias pela Espanha, com tudo arranjado junto a uma empresa especializada em moto turismo. Foi ali, nas palavras do motociclista, começou sua verdadeira paixão pelo moto turismo. Assim, a vontade de “apenas acelerar” foi substituída pelo “prazer em pilotar” fazendo parte da paisagem e descobrindo que gastronomia e história também fazem parte do mundo das motos. De volta ao Brasil, Cínthia o incentivou a trocar a moto (na ocasião uma sport touring foi substituída por uma big trail) e desde então quase todas as viagens do casal aqui pelo Brasil são feitas de moto. Atualmente ambos rodam numa Triumph Explorer 1200. Com essa paixão latente, o casal reservou alguns dias e, aproveitando uma viagem para a França, reservaram alguns dias para, com uma moto, conhecer três regiões muito distintas, mas com diversos pontos em comum: belas paisagens, deliciosa gastronomia e muita história. Tudo isso percorrendo as ótimas estradas da região de Champagne-Ardenne, do Vale do Rio Loire e um trecho da Normandia. Saiba como foi esse tour nas palavras do próprio Marcelo.

PLANEJAMENTO

“Como se tratava de uma viagem “solo” e sem qualquer tipo de apoio para as bagagens, definimos que as distâncias não poderiam ser muito longas, por conta da limitação física da moto e do que se poderia levar. Estávamos no final do inverno, ou seja, a bagagem naturalmente seria mais pesada, e decidimos que não pilotaríamos após o pôr do sol, nesse caso somente por conta da baixa temperatura, já que qualidade das estradas e segurança não são problemáticos por lá.

Estabelecemos Paris como base e acertamos os destinos para três regiões. A primeira foi Champagne-Ardenne, com passeio de um dia (bate e volta) com 370 km no total. Depois viria o Vale do Rio Loire, em dois dias e 730 km no total. Por fim, viriam as cidades de Honfleur e Étretat, na Normandia, em dois dias e 600 km no total.

Todo o planejamento foi feito no Brasil. Consultas a fóruns de discussão, vídeos nas mídias sociais e publicações especializadas foram muito importantes para entender a legislação de trânsito francesa bem como qual o “código” de conduta do motociclista por lá. Descobrimos que a França é uma nação “bikefriendly” – não há disputa entre motos e automóveis – mesmo no trânsito caótico de Paris há o mútuo respeito. Nas rodovias a faixa da esquerda estará (quase) sempre livre para ultrapassagem e os motociclistas têm o hábito de se saudar.

Quanto à moto, não posso dizer que foi fácil encontrar uma sport touring ou big trail para locação. Em Paris há toneladas de scooters e alguma coisa de Harley-Davidson e Triumph (Bonnevilles) disponíveis. Após muita pesquisa encontramos uma empresa em Marselha que possuía a moto que queríamos e que se dispôs a entregá-la em Paris sem custo adicional. Com tudo certo,

para o primeiro dia de viagem escolhemos um “bate e volta” até a cidade de Reims, a nordeste de Paris, na região de Champagne-Ardenne.

CHAMPAGNE

Paris possui um anel viário, a Boulevard Périferique (BP), a partir do qual é feito o acesso a todas as rodovias. Entrar e sair da BP é fácil, a sinalização é eficiente e as indicações das saídas estão posicionadas com boa antecedência. Saímos cedo e começamos a viagem com temperatura de 5º C e garoa. Não nos incomodamos e seguimos viagem. Na altura de Nanteuil-le-Haudouin pegamos uma estrada secundária, a D136, com destino a Crépy-en-Valois, uma pequena cidade de 15 mil habitantes fundada no século X.

A linhagem de 13 reis franceses descende dessa região e ali ainda é possível observar construções centenárias com suas típicas torres e portas esculpidas.

A partir daí acessamos a D1324 e depois novamente a N2 sentido Soissons. Essa região da França não possui topografia acidentada – as rodovias cortam grandes planícies e a pitoresca paisagem vai se alternando entre pequenos vilarejos e grandes plantações.

A partir de Soissons a N31 nos conduziu à cidade de Reims.

Reims é uma das três cidades que constituem o “Triângulo Sagrado da Champagne”, juntamente com Épernay e Châlons-en-Champagne. Além de ser sede das principais marcas de champagne também merece destaque a catedral gótica de Notre-Dame na qual, a partir do século XI, todos os reis franceses foram  coroados.

Por conta do tempo curto fizemos uma caminhada pelo centro, incluindo o almoço e a visita à famosa catedral. Nessa região considere obrigatória a visita às caves de champagne – as principais estão ali sediadas e vale a pena realizar as visitas guiadas, que sempre terminam com uma degustação do precioso “vinho borbulhante”.

De Reims iniciamos o retorno a Paris, agora pela D951 sentido Épernay. A partir daí, as diversas estradas secundárias, identificadas como “RouteTuristique Du Champagne”, que cortam intermináveis vinhedos que se estendem ao longo das colinas. Nesse ponto fomos agraciados com um belíssimo e congelante pôr do sol até o acesso à A4, autoestrada que nos conduziu de volta a Paris.

VALE DO LOIRE

O Vale do Loire, classificado como Patrimônio da Humanidade pela Unesco, é o berço de suntuosos “châteaux” que, durante muito tempo, abrigaram a corte medieval francesa. Além da história e da arquitetura a região também se destaca pelos vinhos e pela gastronomia, emoldurados por maravilhosas paisagens. Para aqueles que desejarem realizar uma visita “completa” ao Vale minha sugestão é a de reservar quatro ou cinco dias. Devido ao tempo curto – dois dias – montamos um roteiro contemplando a “passagem” por diversos castelos e, dentre eles, selecionamos dois para visitarmos inclusive a área interna.

Iniciamos a viagem na parte da manhã, pela Boulevard Périferique com destino à Autoestrada A10. Depois de alguns quilômetros pegamos estradas secundárias que nos levaram à cidade de Chartres, onde fizemos uma rápida parada para abastecimento. A partir daí estabelecemos o curso para a região do Médio-Loire, com destino ao Castelo de Chambord, passando pela cidade de Chateaudun. Da estrada é possível ver o lindo castelo construído sobre o rochedo, perfazendo aproximadamente 140 km em caminhos pitorescos que ligavam pequenos vilarejos entre as imensas plantações da região do Vale.

O Domínio Nacional de Chambord é considerado o maior parque “fechado” da Europa, por conta da extensão dos muros que o circundam (32 km). A construção do castelo, idealizado como um retiro de caça, foi iniciada em 1519 pelo Rei Francisco I que, em 32 anos de reinado, viveu ali por apenas 72 dias. A chegada ao castelo por si já é uma experiência única. Após o portal de acesso pilota-se por vários minutos ao longo da floresta (em estradas asfaltadas) até que a imensa construção renascentista descortina-se em meio às árvores. Para os que viajarem a Chambord na primavera ou no verão vale a pena visitar a área externa, que inclui boa parte da floresta. Mas reserve pelo menos meio dia somente para esse castelo.

Depois seguimos viagem para Blois, cidade à margem do Loire distante apenas 15 km de Chambord. Blois também é berço de outro belo castelo, cuja construção remonta ao século IX. Já no final da tarde voltamos à estrada com destino à cidade de Courcelles-de-Touraine, em uma viagem de 100 km pela Autoestrada A10 até o hotel onde passaríamos a noite.

Em todas as cidades do Vale do Loire há uma infinidade de bons hotéis. Todavia também há a possibilidade de passar a noite em um legítimo castelo do século XV com todo o conforto da era moderna.

Na manhã seguinte nos deslocamos para a cidade de Chinon, às margens do rio Vienne, grande afluente do Loire. Lá, além da cidade medieval também é possível degustar ótimos vinhos de terroir nas diversas vinícolas ali instaladas. Após rápida parada para um café acompanhado por deliciosos macarons, seguimos pela D751 até a cidade de Azay-le-Rideau (onde o castelo foi construído sobre uma ilha) e daí seguimos para Villandry, último castelo renascentista do Vale do Loire, cuja construção foi concluída em 1536.

Despedimo-nos do Vale visitando o Castelo de Chenonceaux, construído sobre o rio Cher, outro afluente do Loire, a partir dos pilares de um antigo moinho fortificado. Tal como em Chambord a visita é uma verdadeira aula de história e muitos ambientes estão preservados tal como eram à época das magníficas festas promovidas pela Rainha Catarina de Médicis.

No final da tarde saímos sob chuva com destino a Paris onde, após 240 km, chegamos em pleno rush do final do dia com direito a passagem pela Rue de Rivoli, ChampsElysées e pela desafiadora rotatória do Arco do Triunfo – uma verdadeira aventura!

REGIÃO DA NORMANDIA

Logo pela manhã deixamos Paris para trás e seguimos pela rodovia A13 rumo à região da Normandia, nome que tem origem nos vikings que subiram o rio Sena no século IX. A região é relativamente extensa e dela selecionamos duas simpáticas cidades para visitarmos, Honfleur e Étretat.

Honfleur está a 200 km de Paris, na foz do rio Sena. Durante o século XV teve papel importante como porto defensivo e hoje suas ruas estreitas e a antiga doca são convidativas para um passeio a pé, sem pressa. Foi o que fizemos durante boa parte da manhã – estacionamos a moto e caminhamos ao longo da cidade, repleta de lojas e ateliês. Almoçamos na antiga doca – a maioria das casas de seis andares ali erguidas no século XVII hoje tem seu térreo ocupado por restaurantes. Por ali há muitas plantações de maçã, logo, a famosa torta (tarte tatin) e a sidra são acompanhamentos obrigatórios para os frutos do mar.

A 45 km de Honfleur está a cidade de Étretat e seu acesso se dá pela D39 após a travessia do rio Sena pela ponte Normandie, joia de engenharia inaugurada em 1995, com aproximadamente 2 km de extensão e 52 m de altura de vão livre. Étretat é uma comuna com pouco mais de 1.500 habitantes encravada entre duas grandes falésias brancas. A mais famosa delas, Falaise d´Aval , está a oeste da cidade e possui forma que lembra um elefante banhando-se no mar.

Ao chegarmos à pequena cidade subimos direto para a colina onde está a capela de Notre-Dame de La Garde. Dali tem-se uma vista incrível da cidade e das falésias vizinhas. Um visual de tirar o fôlego!

Apesar de pequena a região merece um dia inteiro de visita. Esse foi o motivo pelo qual escolhemos pernoitar ali. Na manhã seguinte, dessa vez premiados com um lindo dia de sol, deixamos a moto no hotel e saímos a pé para caminharmos sobre as falésias – as trilhas são “leves” e muito bem sinalizadas. Ali a paisagem é literalmente uma pintura, conforme retratado por Claude Monet em 1865. No meio da tarde deixamos para trás as falésias brancas com destino a Paris – parando para um café na também pitoresca cidade de Vernon. Assim, após 1.700 km rodados em cinco dias chegamos ao final de nossa viagem. Mesmo com o frio do “restinho” do inverno francês pudemos aproveitar as belas paisagens, a alta gastronomia e a história de um país que certamente merecerá outras visitas. Mas desta vez por outras estradas!

DICAS

Para essa viagem alugamos a moto na Road 2Luxe (www.road2luxe.com). Nossa máquina foi uma BMW R1200RT LC modelo 2015. Perfeita para esse tipo de viagem e também muito econômica (média de 20 km/l). Como pilotamos no inverno, as manoplas e bancos aquecidos, tratados como mimos aqui no Brasil, lá fizeram a diferença. Estacionar a moto nas cidades francesas é fácil – pode-se colocá-las sobre as calçadas desde que não atrapalhem a passagem dos pedestres.

A malha rodoviária francesa possui ótima infraestrutura e as Auto Routes (nomeadas como “A”) possuem áreas de descanso (chamadas “Aires”) com banheiros limpos e mesas para refeição.

Pedágios: motos pagam pedágios em todas as rodovias, por isso separe suas moedas (ou notas, dependendo das máquinas) sempre no início da viagem. Na maior parte das rodovias as praças de pedágio são automáticas, ou seja, sem cabines com operadores.

Postos de combustível: nas pequenas cidades e nas rodovias há grande oferta de postos. Lá se opera na modalidade self-service: você mesmo faz o abastecimento e depois paga.

Nas Auto Routes (“A”) o limite é de 130 km/h; nas Routes Nacionales (“N”) variam de 90 km/h a 110 km/h. Nas estradas secundárias podem variar de 70 km/h a 90 km/h. Via de regra, sempre que acessar uma pequena cidade ou vilarejo esse limite cai para 50 km/h ou até 30 km/h. Convém não abusar, pois há radares espalhados em toda a malha (inclusive nas pequenas cidades).

O uso do capacete é obrigatório. Tal como nos automóveis europeus deve haver jaquetas fluorescentes (amarelas) para serem usadas tanto pelo piloto como pelo garupa em caso de parada de emergência. No caso de moto alugada, ela deve possuir um adesivo (certificado de locação) o qual será verificado em conjunto com a cópia do registro do veículo e com o contrato de locação no caso de uma fiscalização”.

*Matéria publicada na e dição #189 da revista Moto Adventure.

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