Viagem de moto para a Patagônia – Parte 1

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Viagem de moto para Patagônia

Viajar de moto pela longínqua e imprevisível região da Patagônia é incrível. Mas a emoção é ainda maior quando você divide essa aventura entre amigos numa convivência de 39 dias

Texto: Natal José Dias
Fotos: Grupo da Viagem/Divulgação

Natal José Dias é um experiente motociclista, amante das máquinas da Harley-Davidson e entusiasta de viagens de moto, tanto que já teve diversas trips de sua autoria publicadas em Moto Adventure. Seja uma viagem internacional, seja um encontro de motociclistas Natal sempre coloca sua moto na estrada. Recentemente montou um tour rumo à Patagônia, convidou os amigos e, em pouco tempo, formou-se um grupo com oito motos H-D. Veja como foi essa viagem nas palavras do próprio Natal.

PLANEJAMENTO

Curto muito planejar viagens. As pesquisas e buscas de alternativas de roteiros me deixam sem fome, sem sono e já me coloco nas estradas. Meu filho Hugo diz que, assim, eu já conheço os lugares e não preciso ir mais, e que eu deveria esperar as surpresas. Será que ele tem razão? Não sei, mas é desse jeito que curto o meu lado aventureiro. O bom é que Hilda, minha esposa, me apoia, participa e dá suas sugestões. E foi assim que, em 2011, comecei o plano de uma viagem rumo à Patagônia. E olha que a viagem aconteceria em 2014. Como queria dar à viagem o caráter de uma expedição, decidi fugir das tradicionais rodovias e grandes cidades, curtir os vilarejos, a cultura e o povo, a comida típica, o imprevisível e lugares nunca dantes, ou pouco, navegados por harleyros. Vale registrar que, dento do nosso grupo, havia também uma Kawasaki Versys, muito bem-vinda, evidentemente.

E, para fazer este roteiro, escolhemos amigos de outras viagens. Assim, além de realizar o sonho de cada um, o companheirismo, a amizade, a tolerância, a parceria e a união certamente viriam à tona, pois nosso destino ia um pouco mais além do Ushuaia, lugar conhecido como o “Fim do Mundo”. Assim, a Patagônia, região geográfica que abrange a parte mais meridional da América do Sul, nos esperava.

SUL DOS ANDES

A Patagônia integra a região mais ao sul da Cordilheira dos Andes e se localiza tanto na Argentina quanto no Chile. A origem de seu nome vem da palavra patagón, usada para descrever o povo nativo que, para os europeus, era considerado gigante, por ter cerca de 1,80m de altura.

Na parte argentina, localizam-se as províncias de Nuquén, Rio Negro, Chubut, Santa Cruz e a parte leste da Tierra Del Fuego.

Na parte chilena temos a região de Los Lagos, Chiloé, Puerto Montt e o sítio arqueológico de Monte Verde. Há também as ilhas ao sul das regiões de Aisén e Magallanes, incluindo o lado ocidental da Tierra Del Fuego.

A Patagônia é uma região marcada por belas paisagens desérticas, de montanhas e glaciares, onde é possível estar próximo à fauna marinha composta por pinguins, baleias e leões-marinhos. É um dos lugares mais procurados por quem gosta de passeios naturais, exóticos e de aventura.

A chamada Patagônia Argentina pode ser dividida em duas áreas distintas: a Patagônia Atlântica e a Patagônia Andina (ou Austral).

A região Atlântica caracteriza-se por apresentar vegetação rasteira, desértica, e ao mesmo tempo possuir uma rica fauna marinha povoada por pinguins, baleias, leões marinhos e lobos do mar. A região se tornou a de maior concentração de animais marinhos do planeta.

Já no lado Andino a Patagônia é dominada pela Cordilheira dos Andes e apresenta cenários com montanhas de picos eternamente nevados, geleiras e lagos que mais parecem pinturas.

Já a Patagônia Chilena é considerada por muitos como o lugar mais lindo da Terra. Esta região presenteia seus visitantes com altas montanhas, lagos verdes e azuis, glaciares, cachoeiras e uma imensidão de terra inexplorada.

Geograficamente a região da Patagônia é única, porém é na divisão política entre Argentina e Chile que encontramos as verdadeiras diferenças. A Patagônia chilena é quase inteiramente composta por paisagens marítimas que contornam os majestosos picos glaciais e os maciços, como Torres Del Paine, por exemplo.

A VIAGEM

Partimos de Rio Claro (SP) em um comboio de 12 motos, com três casais nos acompanhando em território brasileiro, retornando um da cidade de Bauru (SP), outro de Londrina (PR) e o terceiro de Foz do Iguaçu (PR). O calor era impiedoso e só aumentava à medida que rumávamos para o extremo oeste paranaense.

O primeiro desafio para o grupo de expedicionários foi atravessar o Paraguai. Lendas sobre estradas ruins, a polícia e a própria segurança nas estradas ficaram para trás. A aduana deixou a desejar, com muito movimento de carros, pedestres, motos e poucos funcionários para atender. Foi caótico.

Mas, para compensar, ali mesmo na fronteira, fomos recepcionados pelo amigo Rolon, que nos conduziu estradas adentro de seu país. Pouco depois, em nossa próxima parada de abastecimento, lá estava outro grupo de harleyros paraguaios que, com muita alegria e camaradagem, nos conduziu com maestria até nosso hotel em Assunção, desviando dos congestionamentos e com direito a um belo tour pela capital paraguaia.

À noite os harleyros paraguaios nos providenciaram traslado e nos receberam em sua sede com cerveja muito gelada, churrasco típico paraguaio e um bom papo noite adentro.

No dia seguinte, seguimos viagem, das terras paraguaias para terras argentinas. Por experiência anterior, sabíamos da dificuldade de abastecimento na Argentina e levávamos em cada moto um galão com capacidade de 10 litros, por segurança.

VELHO OESTE

O roteiro pelo “velho oeste argentino” foi uma ótima opção, com estradas em bom estado e paisagem de transição deslumbrante. Sob calor fortíssimo e um misto de deserto, pradarias e lagos, as Harleys rasgavam as Rutas 36 e 98 e, ao cair da tarde, inúmeros pássaros cruzavam a nossa frente num balé de rasantes e cores com destino à pequena e charmosa Tostado. Com 16 mil habitantes, a cidade nos recebeu como celebridades ao tomar a rua em frente ao pequeno Hotel Central indagando sobre nossa expedição, fazendo fotos dos expedicionários e motos. Depois, buscando novamente as estradas intermediárias, cortamos as Rutas 17, 34, 23 e 19 rumando para Vila Carlos Paz, ladeados por pequenas estâncias, vilarejos, belíssimo verde e os grandes lagos, já com pouco volume de água.

Numa região montanhosa e ao largo de grandes lagos, Vila Carlos Paz mais se parece com uma cidade europeia. No dia seguinte, uma tempestade nos acolheu logo cedo. Mas como manter nove motos juntas, sob tempestade e frio? Não teve jeito e o grupo se dispersou na saída, porém com destino certo: seguir pela Ruta 20, buscando montanha acima as belezas das “altas cumbres”, a vista maravilhosa do vale e curtindo, mesmo com o frio, as curvas da sinuosa estrada. E, o melhor: do alto tínhamos a visão do vale, lá embaixo, já com características de deserto. A chegada ao vale nos brindou com sol. Em Villa Dolores, no posto de abastecimento, o grupo já reunido transformou a parte externa da loja de conveniência em um imenso varal, na tentativa de secar as encharcadas roupas. Depois a cidade de Mendoza nos recebeu com um carinhoso e ardente sol.

DESERTO E VINHO

A região centro-oeste da Argentina é de fato desértica, com sol muito forte e chuvas raras. Os vinhedos não cobrem nem 4% de seu território de 14.800 quilômetros quadrados, uma área comparável à do Ceará. Mas são suficientes para demonstrar como certos desertos podem ser tão agradavelmente produtivos. Os recursos naturais, que fazem toda a diferença lá, estão nas montanhas dos Andes, estendidas até o horizonte, na fronteira com o Chile. Com uma brutal oferta de vinhos de ótimo custo-benefício, as adegas locais são tentações para nós, brasileiros. Aproveitamos e reservamos um dia para fazer visitação às vinícolas, fábricas de azeite, tudo acompanhado de uma boa degustação. Vale lembrar: a dica é contratar os passeios numa agência de turismo, com guias especializados. Além de você curtir as maravilhas dos vinhos sem precisar pilotar sua moto, seu conhecimento avança nessas iguarias.

Vale também dizer que Mendoza não é só isso. Lá existem outras tentações argentinas, como os alfajores, as roupas de cashmere e os casacos de couro.

Programas variados podem intercalar-se com as visitas às vinícolas, como um rafting nas corredeiras do Rio Mendoza, um passeio a cavalo ou a viagem de dia inteiro até o mirante do Aconcágua, o ponto culminante das Américas, com 6.962 metros de altura. Isso sem falar da subida da Cordilheira pela estradinha de terra chamada Caracoles de Villavicencio, também conhecida como Rota del Año, por suas 360 curvas. É emoção garantida, mas desaconselhável a fazer de Harley-Davidson.

RUMO AO CHILE

Depois disso tudo foi hora de seguir adiante, para a travessia da Cordilheira dos Andes rumo ao Chile, através de um caminho de deserto, pedras, temperatura amena e por que não dizer inesquecível. Serpenteando pela montanha, as paradas para fotos eram constantes. No entanto, na fronteira da Argentina com o Chile a fila estava enorme, com acesso ruim de pedras soltas, falta de organização e longo tempo até liberar pessoas e motos. Mas, enfim rodando novamente, atravessamos o Túnel Cristo Redentor e, já em terras chilenas, fomos forçados a uma longa parada antes da descida dos famosos caracoles. A estrada estava em manutenção e aguardamos a “turma da subida” para depois nos deliciarmos com todas as curvas somente para nós.

A rodovia até Santiago está perfeita, segura, muito bem sinalizada. Na capital chilena fomos recebidos por um enorme calor, congestionamento em túneis e avenidas, mas valeu a pena. O confortável hotel próximo à concessionária Harley-Davidson (na qual fizemos as devidas revisões e troca de óleo) também nos deixava perto da rua dos chamados “barzinhos”, a escolher pelo charme, pela música, pelo cardápio e, por que não, também pelos frequentadores.

Em Santiago, não deixem de visitar o mercado municipal, degustar as comidas típicas (locos e centolla), o centro antigo, além dos passeios no Vale Nevado, vinícolas e tantas outras atrações dessa bela capital.

Depois de duas noites em Santiago, e com as motos já revisadas, buscamos a autopista com destino ao sul. Pedagiada e com boa estrutura de postos de abastecimento e conveniência, é prazeroso pilotar por essa região.

Ao nosso lado direito surgia o majestoso Pacífico, e à esquerda a poderosa Cordilheira dos Andes. A cidade que optamos para o pouso tinha um nome muito sugestivo: Los Angeles. Ali, harleyros locais atraídos se colocaram à nossa disposição e indicaram um excelente hotel. De volta para a estrada, a cada parada surgia uma nova e grata surpresa, sempre cruzando com muitos motociclistas, de diferentes países. À medida que rumávamos para o sul, a paisagem se tornava mais verde. Saímos da autopista I5 e pela I199 já sentíamos o frio da região dos grandes lagos, vulcões e muito, mas muito vento. Essa região centro-sul do território chileno é indescritível. A natureza esbanja beleza com sua flora, fauna e a pujança dos seus lagos e vulcões.

A emoção aumentava à medida que nos aproximávamos do Lago Villarica, com vista frontal ao vulcão do mesmo nome. Paramos em um mirante e ali ficamos um bom tempo antes de seguirmos até Pucon, cidade que traz inúmeras opções, como caminhadas em parques, cachoeiras, termas de águas vulcânicas, rafting e o mais empolgante, a escalada até o cume do Vulcão Villarica. Pucón é incrível e são necessários uns três dias para conhecer a região e escalar o vulcão.

MAIS ESTRADA

Deixamos Pucon para trás e seguimos atravessando o majestoso Parque Nacional Villarica, por vilas em estilo europeu, lagos, com mais vulcões à vista (Quetrupillán, Lanin) e o piso em rípio. Ali o maior desafio era romper o trecho de 30 quilômetros de cordilheira, Paso Mamuil Malal. Comendo muita poeira e derrapagens, chegamos à aduana do Chile, sem problemas ou burocracias.

Alguns quilômetros depois, uma moto niveladora “estragava” a estrada e não deu outra… Uns caindo para cá e outros para lá. Passei pelo local incólume, mas sem poder ajudar, pois não tinha como colocar a moto no descanso ou descer a garupa. Quem já estava no chão ajudou os demais e rompemos a aduana da Argentina chegando num parco asfalto.

Em região de deserto, mas ainda com rasos rios e vegetação rasteira, surgiram as Rutas 60, 23 e depois a 40, desprovida de qualquer estrutura, mas magistralmente linda, rodeada pela Cordilheira dos Andes, com pontes de madeira estreitas caindo, asfalto remendado, pedras e areia nas laterais, grandes represas. Garupas e pilotos não tinham palavras para descrever a aventura quando chegamos a San Carlos de Bariloche. Nossas H-D foram verdadeiras guerreiras. Bom hotel, noite agradável, mas com muito vento e frio, e boa culinária marcaram nossa estada nessa agradável cidade. Nossas esposas ficaram um dia a mais em Bariloche e seguiram de avião para o Ushuaia. Não queríamos submetê-las à parte mais inóspita da viagem. Exceto pela Luciana, que decidiu seguir na garupa do Toninho.

Em breve será publicada a Parte 2 do roteiro.

*Matéria publicada na edição #168 da revista Moto Adventure.

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