Enduro da Independência uniu apaixonados pelo off-road e mostrou que a vida sobre a terra é árdua, porém, gratificante. Acompanhe o relato do percurso entre Aparecida (SP) e Lavras (MG)

Texto: Rosa Freitag
Fotos: Angelo Savastano e Leo Tavares

Enduro da Independência (EI)

O Enduro da Independência (EI) é o maior enduro de regularidade do mundo, e o mais democrático, com 14 categorias – individuais, duplas e várias “over”, de 40 a 60 anos. Em 1983, o evento revisitou o percurso que D. Pedro I fez do Rio de Janeiro a Vila Rica antes de proclamar a Independência. E, ao longo dos anos, o trajeto foi adaptado para acomodar a caravana itinerante de pilotos, mecânicos e organizadores, e para a descoberta de novas trilhas. Em 1985 o enduro teve o recorde de 634 participantes e, nesta 35a edição, reuniu 242 pilotos de 20 estados, que entre 6 e 9 de setembro percorreram cerca de 700 km “Pelas Trilhas da Fé”, de Aparecida (SP) a Lavras (MG).

Planilha no celular

Como novata na modalidade, em vez da planilha de papel enrolada usei a planilha eletrônica, no aplicativo Totem Rally para Android. Baixei os arquivos via wi-fi na secretaria da prova, e meu celular se transformou em um sistema de navegação, mostrando “tulipas”, hodômetro, velocidade ideal, etc., com avisos sonoros em fones no capacete. Na moto é instalado um sensor de roda com transmissor Bluetooth e botoeira no guidão para o ajuste de discrepâncias entre o hodômetro da motocicleta e a marcação da planilha durante a pilotagem.

A planilha indica o caminho por estradas e trilhas, e os obstáculos e perigos através de símbolos e códigos, bem como a velocidade em cada trecho. Vence o piloto que cumprir as determinações da forma mais precisa e mais próximo da velocidade indicada, sem se atrasar ou adiantar. Cada piloto também recebe um rastreador por satélite que afere em tempo real o seu trajeto.

EI-2017_Foto: Leo Tavares

O desafio

A secretaria da prova e o parque fechado para a largada do primeiro dia ocuparam a tribuna e o pátio em frente à Basílica de Aparecida. Houve missa e bênção especial aos pilotos e, na solenidade de abertura, aceleramos as motos. No dia 06/09, as largadas se iniciaram às 7h, com intervalo de 30 segundos por piloto.

Às 8h40m30s acelerei a Kawasaki KLX 140 e os primeiros quilômetros de navegação foram tranquilos, saindo da cidade por estradas de terra. Mas logo os símbolos indicaram porteiras e ponte, e começou o desafio: um morro com erosões e um riacho no meio da subida. Aí vimos “cenas de batalha”: motos caídas, pilotos empurrando, outros acelerando forte na subida, e os moradores locais se divertindo e suando para ajudar.

A navegação complicou, pois já não havia uma trilha clara demarcada, e com o tempo que perdi subindo o morro a pé, em ziguezague, pois o ajudante levou minha moto até o topo, todos os pilotos que largaram depois me ultrapassaram.

Descemos o outro lado do morro pelo caminho que julgamos ser o correto, pois na planilha dizia “erosões”, e adiante vimos uma descida com erosão. Lá embaixo encontramos vacas, porteiras fechadas, e nenhuma marca de pneu de moto. Sentimos que estávamos perdidos, mas tinha sinal de celular! Fizemos contato com membros da equipe de apoio e eles nos disseram para voltar para o último trecho da planilha que tínhamos certeza estar correto. Tentamos subir, mas a moto entalou na erosão. Disseram para aguardar, que o “limpa-trilha” conseguiria nos achar, e se ouvíssemos o som de moto 2 tempos, deveríamos acelerar e gritar (moto de trilha não tem buzina). Logo, ouvimos ao longe o som típico do motor 2 tempos e começamos a acelerar, gritar… mas aquele motor não parava… era uma motosserra! Por acaso nos acharam, e seguimos até o neutro em Piquete – mas era tarde para continuar e o apoio levou a motocicleta até Itajubá.

No segundo dia, a estratégia foi andar em grupo com pilotos que estavam lá para se divertir. Novamente, um morro desafiador e também nos perdemos nas trilhas, mas, juntos, chegamos ao neutro em Pedralva, onde crianças que participavam de um desfile cívico saudaram os competidores. Seguimos no carro de apoio até o último neutro em Lambari, e de lá largamos no horário certo e navegamos com mais confiança nas trilhas. Mas estávamos exaustos, empurrando a moto para passar em troncos e raízes. O hodômetro parou de funcionar, pois o ímã da roda caiu. Impossibilitados de navegar, esperamos os limpa-trilhas para acompanhá-los até Três Corações por paisagens belíssimas.

O diretor da prova disse que as pedras em São Thomé das Letras seriam muito difíceis, e sugeriu que, no terceiro dia, largássemos do neutro em Luminárias. Assim fizemos, mas justamente em uma subida com muitas pedras, perdemos o embalo, a moto tombou e, ao tentar sair, ficamos sem embreagem. A motocicleta foi rebocada até Lavras, local de largada e chegada do último dia de prova, mas não foi possível consertar a tempo. Empurramos a máquina até o palanque dentro do shopping Lavras no horário da chegada para ganhar a medalha de participação, e mais tarde recebemos o troféu de 3o lugar na Categoria Feminina.

O nível técnico, físico e mecânico que o EI exige é alto, mas é uma experiência fantástica, daquelas que todo amante do motociclismo off-road precisa experimentar uma vez na vida!

EI-2017_Foto: Leo Tavares

Categorias e respectivos campeões de 2017:

Master: Jomar Grecco – Domingos Martins, ES

Sênior: Pedro Henrique C. Lage – Timóteo, MG

Júnior: Gilsimar P. Inacio – São Thomé das Letras, MG

Novato: Tomé N. Carvalho – Lagoa da Prata, MG

Over 40: Dario Julio Lopes – Lavras, MG

Over 45: Sandro Hoffmann – Venda Nova do Imigrante, ES

Over 50: Noé de Oliveira – Formiga, MG

Over 55: Hugo Morato – Belo Horizonte, MG

Over 60: George Parik – Jandira, SP

Brasil: Fabio C. Amaral – Divinópolis, MG

Feminina: Janaína Souza – São Paulo, SP

Dupla Graduado: Rigor Rico e Ripe Galileu – Barão de Cocais, MG

Dupla Junior: Leonardo Nannetti e Pedro L. R. Dias – Machado, MG

Dupla Estreante: Bigarelli e Adauto Afonso – Dois Córregos, SP

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