As paisagens deslumbrantes do litoral alagoano foram o cenário para uma aventura off-road de tirar o fôlego

TEXTO E FOTOS: LUCIANA ÁVILA

Um rio com água verdinha e cristalina convidando você a mergulhar. Depois de pilotar por horas, não há como recusar este convite da natureza. Fui presenteada com essa surpresa refrescante em meu caminho, um cenário típico da região do litoral alagoano. E este foi apenas um dos capítulos desta aventura.

Acordei bem cedo no último sábado de 2018, por volta das 05h. O encontro com os demais pilotos estava marcado para as 06h. Nosso guia foi o experiente piloto Calixto Jr., campeão alagoano de Rally Baja e campeão pernambucano de Motocross (MX4). Ele orquestrou uma turma bem heterogênea: alguns pilotos campeões de motocross dividindo sua experiência com outros que simplesmente praticam o motociclismo como hobby. Eu estava na categoria dos amadores.

No verão, Alagoas é praticamente um caldeirão fervendo, com você dentro dele. Foi mais ou menos assim, derretendo, que me senti quando saímos da famosa região da Praia do Francês (nosso ponto de encontro) para encarar os primeiros obstáculos. As dunas, localizadas a poucos quilômetros do local de partida, se tornaram um grande parque de diversões. Uma área gigantesca, que lembrava um bolo com cobertura de chantilly, no qual podíamos subir e descer à vontade. Ficamos cerca de trinta minutos ali, sem pressa de sair, só testando nossa capacidade de acelerar na areia fofa. Tentei subir uma das dunas usando a segunda marcha em minha Honda CRF 230, mas, no meio da subida, a máquina parou. “Vai com tudo, Lu”, disse meu orientador Calixto Jr. Na segunda tentativa, lá fui eu: terceira marcha! Subi com folga, tranqüila, e com a primeira dose de adrenalina circulando em meu organismo.

AMIZADE EM PRIMEIRO PLANO

A trilha tem um lado que me encanta: o companheirismo! Muitas vezes, você nem conhece o colega de grupo, mas basta parar em algum obstáculo que logo aparece alguém para lhe dar uma mãozinha, um empurrãozinho ou ajudar a levantar a moto em caso de queda. Às vezes, você nem sabe o nome de quem lhe ajudou, mas sente que tem com quem contar. No meio do caminho, percebi que os mais jovens dedicavam atenção especial a um piloto: “Seu” Paulo Braz. Sempre de olho no que ele fazia, dando-lhe os parabéns em subidas difíceis ou um empurrãozinho na moto quando ele atolava no areião. Em um dos intervalinhos para beber água, entre galhos secos empoeirados e aproveitando uma fresta de sombra, nos sentamos no chão para papear rapidamente, eu e o Seu Paulo. Fiquei admirada com sua garra. Com cabelos brancos, entusiasmo de criança e 68 anos de idade, ele estava fazendo trilha havia apenas um ano, apesar de já ter experiência pilotando em asfalto. “Estou gostando da turma, é uma galera solidária. Aqui, dividimos o prato de feijão, a alegria e a poeira”, disse Seu Paulo, ainda recuperando o fôlego depois de ter encarado o ziguezague da mata que tínhamos acabado de concluir.

Eu, apesar de fazer trilha desde os 15 anos, não canso de me empolgar com essa atividade. Para mim, é um exemplo de vida. É você olhar aquele caminho escondido no mato, que parece não existir, e ir em frente, apostando que existe, sim, uma rota a seguir! É olhar para um obstáculo gigantesco e enfrentá-lo (e sentir-se mais forte depois de superá-lo). Assim como na vida, na trilha você tem inseguranças. Será que vai dar certo ir por este lugar? Ou será que eu escolho aquele outro ali? Será que eu vou cair se for mais ousada? Está na hora de ir mais devagar? Na trilha, como em nosso dia-a-dia, precisamos tomar decisões rápidas. E o maior dos aprendizados é olhar para frente sem se preocupar com os erros do passado.

Nossa trilha durou exatamente seis horas, com um breve intervalo para almoço no restaurante improvisado bem às margens daquele rio de águas cristalinas citado no início deste artigo. Depois do almoço (com arroz, salada e galinha caipira), pé na estrada de novo! Nos últimos obstáculos, Calixto nos levou para alguns morros gigantes, com muitos tocos e galhos ressecados por queimadas. A terra parecia devastada e desértica. De cara, deu para ver que, ali, a coisa era para pilotos experientes. Perguntei se havia outra opção ao invés de subir aquele ladeirão “sinistro”, e Calixto respondeu: “Não tem outra opção, não, Lu”. Quando viu minha cara de assustada, ele abriu um sorriso e comentou: “Tem sim, aquela estradinha ali”. Ufa!

Já completamente sem energia, mas satisfeita com aquele dia tão feliz, fiquei observando alguns dos pilotos que encararam o desafio. Naquele momento, pensei em como é lindo ver a sintonia entre pilotos e máquinas. É admirável observar como essas motocicletas fazem coisas inacreditáveis – e como é bom saber que, em cima de uma moto, você pode vivenciar experiências que nunca serão esquecidas.

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