Aos 68, viajante percorre América do Sul com sua moto

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Motociclista viveu grande aventura aos 68 anos de idade

Pelas barbas do Profeta – A bordo de uma Honda ML 125cc, motociclista de 68 anos viveu uma grande aventura

Texto e fotos: Thiago R. Westphalen

O motociclista Thiago Westphalen nasceu em Joinville (SC). Recentemente, o viajante, mais conhecido como “Profeta”, preparou sua máquina e seguiu em uma viagem pela América do Sul. Confira a aventura nas palavras do próprio “Profeta”.

APELIDO

O apelido de “Profeta” me foi dado por um padre de Sorocaba (SP), no ano de 1962. Na época, eu tinha 17 anos e, por ser muito religioso, frequentava a igreja com muita seriedade. Já minha história no Motociclismo remonta a 1982, quando entrei em um consórcio para adquirir minha primeira moto. Comecei a pagar as 36 prestações em agosto daquele ano. Não foi fácil adquirir a tão sonhada Honda ML 125cc e fui o último contemplado do grupo. Na época, eu época tinha 41 anos e trabalhava em São Roque (SP). As pessoas me diziam: “Profeta, você deveria ter entrado em um consórcio de carro, já está velho demais para andar de moto.” Mas outro amigo, Marcos Espinoza, com seus 25 anos de idade, me incentivava: “Não dê ouvido a essas pessoas, elas é que são velha de ‘cabeça’.”

Em 1986 fiz minha primeira longa viagem, na qual rodei 4.200 km. E em 1988 fui à Fortaleza ver a chegada do Rally dos Sertões. Meu grande amigo, o piloto Juca Bala, participava da competição. Novamente, eu e minha Honda ML fizemos uma boa viagem. E eu até a apelidei de “Georgio Nicole”, nome de uma cama dos anos 1960, famosa e muito confortável.

RUMO AO USHUAIA

Mais recentemente, incentivado pelo amigo Rodrigo Nunes – um motociclista jovem, mas experiente – a oportunidade de realizar um sonho antigo (viajar ao Ushuaia) começou a se materializar. Fui atrás dos documentos (passaporte, carta verde, carta internacional, atestado de saúde internacional etc.) e batizei a aventura como “A América do Sul pelas Barbas do Profeta”.

Fui atrás de patrocínio e não foi difícil obtê-lo. Com a ajuda de amigos, consegui o suficiente para as despesas da viagem. A partir dali, eu sabia que conheceria lugares que todos os motociclistas sonham visitar: Ushuaia, Carretera Austral, São Pedro de Atacama, La Higuera (local onde Che Guevara foi morto, na Bolívia), Estrada da Morte (Bolívia), Puno e Machu Picchu (Peru).

Encontrei boas estradas pelo caminho e, em alguns dias, lá estava eu em Buenos Aires, capital da Argentina. A partir dali, restavam mais alguns dias de estrada. Segui tranquilamente rumo ao fim do mundo. Vale lembrar que, no percurso para o Ushuaia, depois de Buenos Aires, os postos de combustíveis são muito distantes e o viajante enfrenta fortes ventos.

Mas é um caminho muito bacana – e, além disso, ao parar para abastecer, sempre surgem outros motociclistas (conheci gente do Canadá, França, Espanha, Itália, Portugal, México e Brasil). A maior parte pilotava motos como a BMW GS 1200cc e preferia viajar em grupos. Sempre me perguntavam: “Onde estão os seus amigos?” Eu respondia que viajo só e que Deus me acompanhava.

Quando eu dizia que tinha 68 anos, todos me cumprimentavam. Alguns indagavam: “Por que você não compra uma moto maior, igual à nossa? É muito mais confortável.” Eu respondia que, para mim, isso não era necessário. Quem viaja sou eu, não a moto!

RISADAS E PERRENGUES

Alguns fatos inusitados aconteceram ao longo da viagem. Na aduana do Equador, é necessário preencher um formulário e o agente federal, além de pedir alguns documentos necessários, queria saber o valor da moto. Na fila, na minha frente, havia dois venezuelanos. Um policial perguntou a um deles: “Qual é o valor da sua moto?” Ele respondeu: “US$ 30 mil.” O outro disse: “US$ 35 mil.” Então, chegou a minha vez. Respondi: “US$ 1 mil.” Assustado, o homem retrucou: “Você não está de moto, isto deve ser uma motoneta.”

Não gostei dele ter humilhado minha fiel companheira e pensei “alto”: “seu filho da p….”. Ele perguntou o que eu havia falado. Respondi: “tu és um hombre mui bueno.” Todo sorridente, ele pegou a máquina fotográfica e tirou fotos de mim e da moto. Mas me mandou abrir o baú do veículo, para inspecioná-lo. Remexeu aqui e ali e encontrou uma bolsinha com vários comprimidos: “Tiene muy pastilhas, só não tienes os azulzinhos.” Respondi que sou aposentado, nos despedimos e segui viagem com os dois venezuelanos.

LUGARES INCRÍVEIS

Tive o prazer de visitar lugares fantásticos e avistar paisagens deslumbrantes, que ficarão registradas em minha memória para sempre. Poderia citar detalhes de cada lugar por onde passei, mas me limito a afirmar que viajar de moto é algo que me faz ser um homem cada vez melhor. Esta viagem foi, também, um tributo à minha esposa, Marina, já falecida. Ela sempre me apoiou e, agora, quem faz isso é minha filha, Karina.

AGRADECIMENTOS

Agradeço aos patrocinadores: Levorin Pneus, Minor Autopeças, Casa Grande Imóveis, Fábio do Posto, Godivel Veículos, Betão Agroverde, Águias dos Agrestes Moto Clube, Lavsim, Rodrigo Nunes pelo apoio e Prefeitura da Estância Turística de São Roque.

CURIOSIDADES

– Total de litros de combustível gasto: aproximadamente 1.066 litros;

– Média de 30 km/litro;

– Combustível mais barato: encher o tanque, na Venezuela, custa apenas R$ 2,00.

– 31.805 km em 110 dias;

– 30.000 km em asfalto / 1.100 km em rípio / 705 km em estrada de terra;

– 30 trocas de óleo;

– Peso da bagagem: 28 kg;

– Gasto da viagem: R$ 12.000

*Matéria publicada na edição #165 da revista Moto Adventure.  Os valores citados podem ter sofrido alterações.

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