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Viagem de moto pelas chapadas: Diamantina, Veadeiros e Guimarães

Imagine percorrer as três chapadas brasileiras, através de pequenas estradas em terra, sempre conhecendo novas pessoas e culturas. Foi o que fez o motociclista Roberto Atobá

Texto: Roberto Atobá/Redação
Fotos: Roberto Atobá

PAULEIRA

Sem saber o que nos esperava, pegamos a estrada para a Chapada Gaúcha, a 160 km de distância, com a intenção de pernoitar por lá. Quanta inocência: essa rodovia estadual é a pior estrada em que já andei na vida. Mesmo sendo larga, era toda “encascalhada”, com enormes pedras que, quando presas na terra, destruíam os aros, e quando soltas, poderiam causar um grave tombo. Para completar, em todo trecho, havia enormes costelas que nos obrigavam a andar próximos dos 100 km/h para que as suspensões “flutuassem” sobre os buracos. Um tombo em tais condições traria sérios danos aos pilotos e às motos. Era inevitável  não pensar no engenheiro, e em sua genitora, responsável por aquele “crime”. A Ténéré 660 foi vítima das tais pedras e um pneu furado me obrigou a ir até a pequena Pandeiros buscar socorro em um dos vários borracheiros do lugar. Aliás, a estrada é tão ruim que acaba sendo um incremento na fraca economia local. Para se ter ideia, câmaras de ar de todo tipo são vendidas no único supermercado do lugar. Por sorte minha, seu Jair, depois de muita conversa, resolveu ir em sua velha C-10, movida a gás de cozinha, buscar a moto. Este resgate foi um outro tipo de aventura, já que quase sofremos um grave acidente quando ele caiu com o velho carro no único e enorme buraco dos 15 km que nos separava da moto com pneu furado. Ao perguntar pelo cinto de segurança ele responde: “Tá lá na frente, amarrando o bujão de gás”. Mais tarde, o mesmo seu Jair me confessou que achava que estava sendo levado para uma armadilha, para ser assaltado no seu bem mais precioso. Aí é que fui entender sua cara de pânico ao ver-me com a máquina fotográfica tentando tirar uma foto sua, enquanto segurava a porta da caminhonete que não fechava. No seu pânico, ele achou que era uma arma que eu tirava do bolso.

Com o atraso devido ao incidente do pneu, dormimos em Pandeiros, na única pensão da cidade. E, devido ao calor, combinamos sair às 5h da manhã em direção às terras do Parque Grande Sertão Veredas, e ao estado de Goiás. Depois de passarmos pelo inferno da MG 479, a pilotagem se tornou bem mais divertida, com uma estradinha estreita e com muita areia que cruzava o parque na divisa entre Minas, Bahia e Goiás. O verde dos pequizeiros, da vegetação do cerrado, além das óbvias veredas com seu enormes buritizeiros, nos acompanhou garantindo uma bela paisagem. E assim, e com dificuldades com a navegação, que passou a ser feita pela bússola do GPS, entramos em Goiás para pernoitar e lavar a roupa, em Alvorada do Norte. Neste dia, rodamos 460 km, sendo apenas 12 km em asfalto.

MAIS ESTRADA

Acordar, vestir o equipamento e saber que naquele dia estaríamos no segundo destino, a Chapada dos Veadeiros, trouxe um ânimo maior para o grupo, e a tocada começou forte pelas boas terras do norte goiano. A pilotagem ficou extremamente agradável quando nos aproximamos da Serra da Laranjeira, nossa guia até Alto Paraíso de Goiás. Ao chegar, já se percebe um bom astral presente no lugar. A cidade está sobre uma enorme placa de cristais de quartzo e sobre o mesmo paralelo 14 que corta Machu Pichu, no Peru, o que faz muitos acreditarem que o local está livre de qualquer catástrofe e que é perfeito para o contato com seres iluminados, deste e de outros mundos. Além deste ambiente mágico, a Chapada tem várias cachoeiras que estão entre as mais belas do país.

Com o relógio sempre contra, tivemos pouco tempo para curtir as atrações naturais, como Vale da Lua, Cachoeira dos Couros e Jardim de Maytrea. Seguimos então para Vila de São Jorge, a versão de Woodstock da Chapada dos Veadeiros. Almoçamos e decidimos que, devido ao horário, dormiríamos em uma pousada no meio do mato onde sabíamos que existiam alguns poços de água quente. Porém, ao chegarmos lá, nos surpreendemos com o valor da diária (R$120 por acomodações extremamente simples) e resolvemos rodar mais um pouco pela GO 239, margeando a  seca barragem de Serra da Mesa, até Niquelândia. Os primeiros pingos de chuva da viagem anunciavam que esta situação de seca estava perto de mudar para todo o povo daquela região.

Com “São Garmim” apontando para oeste, seguimos por belas estradas que cortavam serras ainda na região da barragem. Terras ricas em ouro e de grande importância histórica, como a surpreendente Pilar de Goiás. A estrada de terra vermelha estava pintada pelo amarelo das cagaitas maduras e bichos, como teús, emas, saracuras, tamanduás e muitas pombas, desfilavam a todo o tempo na nossa frente. E assim, andando sob o forte calor, chegamos ao Rio Araguaia para cruzar a balsa que nos deixaria em Cocalinho, já no Mato Grosso.

Dali, em uma movimentada estrada de terra, com pontes de madeira muito perigosas , seguimos até a casa do amigo Élson, em Canarana. Chegamos a um verdadeiro oásis. Além de muito bem recebidos, lavamos todas as roupas e pudemos dar um trato nas motos, que sofreram muito até ali em mais de 3 mil km em estradas de terra.

NOVOS RUMOS

Depois de três dias, com mais dois novos parceiros de viagem, Élson e Saulo, que vieram de São Paulo, demos uma esticada até o Xingu antes de cumprir a última parte até a Chapada dos Guimarães, perto de Cuiabá. Assim, em cinco motos, partimos por estradas de terra que cruzavam um devastado cerrado do Mato Grosso, já totalmente ocupado por lavouras de todo tipo. A Chapada dos Guimarães, o ponto final  de nossa viagem, nos surpreendeu com sua beleza natural, e como sempre, fomos muito bem recepcionados pelos integrantes de um moto clube local, os Lobos da Serra, que nos informaram sobre as muitas atrações naturais do lugar.  Além de ser o centro geodésico da América do Sul, a Chapada é repleta de bonitas cachoeiras e mirantes que nos permitem ficar horas apreciando diferentes paisagens.

No meio de muita conversa, eles nos deram uma dica sobre como chegar até Porto Jofre, via Transpantaneira, a 120 km da fronteira com a Bolívia. Seguir por tal caminho me faria cruzar o país de leste a oeste, já que comecei minha aventura do litoral baiano. Não pensamos duas vezes, mas aí já é um outro “causo”.

Faltava agora encarar a parte menos divertida, que era a volta para casa em aproximados 2.500 km em asfalto, passando por Goiás e Minas, para finalmente chegar à Bahia. Fortes chuvas me acompanharam todo o tempo, o que indicava que a viagem pelas Chapadas tinha se encerrado no dia exato, pois como já disse, a lama é um ingrediente extremamente perigoso para longas jornadas na terra.

Terminamos bem, motos e pilotos. E, antes de chegar a casa, já tinha elaborado um novo plano, pouco mais que um sonho, maior e mais ousado. E como dizem por aí, “quem viver, verá.”

“Como um script incerto, trágico e, ao mesmo tempo, incompreensível, quis a história que nosso grande mestre de um Brasil off-road viesse a nos deixar justamente em 27 de julho, dia do motociclista. Foi uma piada sem graça que tivemos que engolir seco e descobrir que, dentre tantas coisas que cabem dentro de um capacete, cabe também um punhado de lágrimas por uma saudade que acabou de puxar o pedal de descanso. Roberto Atobá foi mestre da arte de descobrir um Brasil sem asfalto e de ouvir e fotografar pessoas. Registrou retratos, expressões e trejeitos. Conheceu um Brasil caboclo, rural, indígena, de beira de praia, pé de serra, do sertanejo e de tantos outros povos dentro de um mesmo povo e fez isso com uma arte intangível e uma sensibilidade que nunca coube na garupa de uma moto”, disse Vantuir Boppre, documentarista de aventuras ao falar de Roberto Atobá em uma justa e singela homenagem a esse motociclista de tantos amigos.

Confira a Parte 1 do roteiro.

*Matéria publicada na edição #167 da revista Moto Adventure.

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