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Puerto Natales a Torres del Paine

Em tour pela Patagônia, motociclista paulista enfrenta diversos perrengues, mas a grande beleza da região fez valer cada segundo da viagem

Texto e Fotos: Fabrizio Passari

O motociclista Fabrizio Passari, de 38 anos, é engenheiro e atualmente pilota uma Triumph Tiger 1050. Residente na capital paulista, ele constantemente realiza viagens de moto, algumas mais curtas, outras mais distantes, como para o litoral do Nordeste, Serra Gaúcha e Chapada Diamantina. Sempre em busca de novos destinos, Fabrizio recentemente montou um tour rumo ao sul do Chile e da Argentina. Veja como foi essa viagem, nas palavras do próprio Fabrizio.

O DESTINO

“Sempre ouvi falar de um lugar no sul do Chile em que as paisagens não cabiam nas fotos, cuja beleza era de deixar os visitantes sem palavras, e onde o frio e o vento desafiavam até os motociclistas mais experientes. O nome do lugar? Parque Nacional Torres Del Paine, no Chile. Curioso, montei um roteiro de viagem.

O caminho mais curto de São Paulo a Torres Del Paine tem 5.150 quilômetros. A maior parte dele é feita pela Ruta 3 argentina, uma reta sem fim, sem muitos atrativos visuais e com muito, mas muito, vento. Um sofrimento conhecido por todos que seguem para Ushuaia, na Argentina. Pensei, então: rodar tanto assim e nessas condições merece uma compensação. Farei um roteiro cheio de atrações, e não só Torres Del Paine. A ideia era conhecer também todo o litoral argentino, a estância turística de El Calafate, Buenos Aires e ainda aproveitar o verão em Punta del Este, no Uruguai. Tudo isso depois do prato principal: conhecer e percorrer as trilhas, geleiras e lugares incríveis do Parque Nacional de Torres Del Paine.

ESTRADA

A melhor época para visitar o sul da Patagônia é o verão, quando a temperatura fica (um pouco) acima de zero grau. Saí, então, pouco antes do Natal, rumo a Foz do Iguaçu (PR). Em menos de 24 horas de viagem já estava na Argentina, onde parei em Concordia, e depois em Azul, duas cidades muito simpáticas, mas sem grandes atrativos turísticos. As estradas na Argentina estão em ótimo estado e, perto das brasileiras, são pouco movimentadas, o que faz a viagem render.

Sempre dou a dica de sair antes das 6h00 em viagens longas. Assim, por volta das 15h00, você já estará no próximo destino, tendo tempo para passear ou contornar imprevistos. Foi o que aconteceu comigo pouco antes de chegar a Azul. Tudo estava tranquilo até eu parar para consultar o mapa numa bifurcação. Desliguei a moto e quem disse que ela pegava de volta? Debaixo de um sol de 37° tive que empurrar a moto. Para piorar eu usava jaqueta e calça preparada para neve! Passado o sufoco, comprei uma bateria nova em Azul. Depois de Azul, começaram os temidos ventos laterais. Incessantes, fazem com que se pilote deitado para a esquerda – na reta! Quer virar para direita? Não precisa inclinar para o lado da curva, é só diminuir a inclinação, pois mesmo deitado para esquerda você vira para a direita. Nesse dia, parei apenas em Viedma, já na Patagônia. Viedma fica na beira do rio Negro, tem um ar de interior, mas é muito rica culturalmente e extremamente acolhedora. Caminhar no calçadão à beira do rio é fantástico.

SUFOCO

Depois de curtir a capital histórica da Patagônia, rumei para Puerto Madryn. Nesse dia quase fiquei na estrada sem gasolina! Tinha planejado parar para abastecer em Sierra Grande, mas, chegando lá, os postos não tinham gasolina. Tudo seco, e vários carros parados na esperança da gasolina chegar em breve. Como eu já previa essa possibilidade, desde a parada anterior eu já vinha bem devagar: não passava de 90 km/hora.

A cidade de Puerto Madryn é uma estância turística muito bonita. Fazia calor (24°) mas a água era congelante. Do pier é comum se avistar leões marinhos e baleias. Depois de um breve descanso, rumei para Caleta Olivia. Sempre em ritmo tartaruga, para poupar gasolina. No dia seguinte a sorte me abandonou. A moto não pegava, nem no tranco. Com isso fiquei preso em Caleta Olivia, já que era domingo. Aproveitei o dia para passear numa “loberia” – praia onde leões marinhos costumam descansar. Três horas de caminhada e eis que… lá estavam eles! Resolvi chegar perto. O bicho é grande! Pelo menos uns 2,5 metros. Na segunda-feira, às 9h00 em ponto a oficina que me indicaram estava abrindo e eu estava na porta. Depois de desmontar e montar o motor de arranque e dar carga na bateria (nova) a moto funcionou!  Às 12h40 saí da oficina confiante. A próxima missão era conseguir gasolina. Nenhum posto da cidade tinha. Tudo seco. Vi então uma fila de carros que dobrava o quarteirão: só podia ser o líquido precioso!

Às 14h eu estava na estrada. Compensar o dia anterior fazendo dois trechos de uma só vez, e ainda mais saindo tarde, parecia missão impossível. Mas eu queria tentar. E assim foi – com muito, muito vento e muita pressa para chegar. Só parava para abastecer e nem descia da moto. Na quarta parada, eis que… a moto não pegava de novo. Já era 20h00, frio de matar, eu em um posto no meio do nada, com a moto parada.

Por fim, empurrei a moto até um hotel que, por sorte, existia ali. Não foi fácil não… Ao fazer o check-in, outra boa notícia: a pousada (sem outra por perto!) iria fechar para o Natal, e eu tinha que me retirar até as 10h00. Programei, então, o despertador para 4h e às 4h15 eu já estava na estrada, determinado a fazer a moto pegar no tranco. As chances eram pequenas, uma vez que eu já tentara isso outras duas vezes – com duas pessoas ajudando a empurrar – ambas sem sucesso.

Quando me preparava para a primeira corrida apareceu um carro na estrada. Era uma caminhonete da polícia! Fiz sinal, expliquei o que estava acontecendo e perguntei como poderiam me ajudar. Ao contrário do que dizem sobre a polícia argentina, eles foram super-solícitos e se ofereceram para levar a moto até a cidade mais próxima: Comandante Luis Piedrabuena.

Colocamos então a moto na caçamba, mas não tinha como amarrá-la. Com o vento que fazia certamente iria tombar. Lembrei que tinha elástico embaixo do banco, mas ao tentar abri-lo escutei um barulho: a chave da moto partiu em dois. Véspera de Natal, cinco da manhã, no meio do nada, maior frio e ventania, expulso da pousada, moto quebrada, e agora sem chave!! Sem stress, pensei: o mais importante agora é chegar numa cidade, e isso eu iria conseguir.

Confira a Parte 2 do roteiro.

*Matéria publicada na edição #171 da revista Moito Adventure.

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