Cheio de atrativos e com bons caminhos de terra, este roteiro é ideal para quem busca aventura e um contato com a natureza

TEXTO E FOTOS: TRINITY RONZELLA

O local escolhido para esta aventura foi a região do Parque Nacional do Itatiaia e suas inúmeras estradas de terra – que, subindo e descendo, nos presenteiam com paisagens belíssimas. É uma região pacata e calma, onde a vida parece passar mais devagar. Portanto, mesmo com o tempo “contado” para fazer a reportagem, nos permitimos parar, contemplar, conversar e tomar banho de cachoeira. O Itatiaia foi o primeiro parque nacional do Brasil, criado em 1937, e fica na Serra da Mantiqueira, cenário de fundo deste roteiro. Além de inúmeros atrativos, o local conta com o Pico das Agulhas Negras, que chega a 2.791 metros de altitude e é muito procurado pelos adeptos de trekking e escalada.

“CHÃO PRETO”

Devido ao cronograma enxuto, usamos o asfalto, partindo de “Sampa” pela Rodovia Ayrton Senna, Carvalho Pinto e Dutra. Passando a divisa do Estado de SP/RJ, pegue a saída 330 para Engenheiro Passos e Itamonte e se prepare para começar a subir, encontrando muitas curvas e paisagens. Aí, já foram percorridos quase 250 km. A partir de então, serão os últimos 26 km de asfalto. Considere isto como um deslocamento, pois a aventura começa agora!

PARQUE NACIONAL DO ITATIAIA

Depois de 26 km, chega-se a uma estrutura com barracas de pastéis – a divisa entre os estados de Rio de Janeiro e Minas Gerais está chegando! Nesse ponto, saindo da rodovia para a direita, avista-se a placa do parque. Siga por essa estrada, que é um misto de terra, asfalto, pedras e pontes, mas que é bem legal e pouco movimentada (ao menos durante a semana). A estrada leva à entrada do parque, que dá acesso ao Pico das Agulhas Negras e Prateleiras, dois pontos muito visitados por quem curte caminhadas e escaladas. 5 km antes de chegar à portaria, há uma entrada à esquerda, que segue para Fragaria, Vargem Grande e Serra Negra – entre ali! A partir desse momento, surgem pedras e curvas no caminho (portanto, tome cuidado!). Nesta descida, é importante saber usar os freios. Em um lugar como este, o ABS traseiro pode atrapalhar – assim, a dica é abusar do dianteiro. Se a moto não tiver ABS, freie com cuidado e aproveite o freio traseiro nas derrapagens.

Passada a descida, acabam-se as preocupações com a dificuldade da estrada e o passeio segue com tranquilidade. Porém, fique atento: podem surgir carros no sentido contrário. Além da paisagem, algumas pousadas, igrejas, vilarejos e cachoeiras são atrativos do passeio (que, no meu caso, foi até o distrito de Santo Antonio do Rio Grande). Quando cheguei, o tempo prometia chuva pesada. Já que não conhecia a estrada a seguir, decidi passar a noite por ali. Santo Antonio é pequena, pacata e acolhedora e há opções de hospedagem no centro da cidade. Hospedei-me, bati um papo com os moradores locais e esperei terminar a missa para a Dona Cida preparar o jantar no restaurante “Cosme e Damião”. Um fogão a lenha, com comida mineira servida na panela, combinou perfeitamente com a chuva que caiu. Em seguida, fui me deitar para um merecido descanso.

O DIA SEGUINTE

Acordei renovado, graças à comida mineira! O hotel onde fiquei não oferecia café da manhã, mas, bem ao lado, havia uma padaria que servia um “pingado” e pão com manteiga. Era tudo o que eu queria – e o leite era de vaca, mesmo! Carreguei a moto e parti para mais um dia de trabalho. A chuva havia passado e o próximo destino seria Aiuruoca. Mas, para chegar lá, foram necessárias quase nove horas e 140 km.

Eu explico: saindo de Santo Antonio, selecionei uma estrada que ia para Visconde de Mauá e Vila de Maromba (a ideia era dar uma olhada na região e, quem sabe, tomar um banho de cachoeira). Depois de Maromba, eu voltaria por outro caminho de terra até Aiuruoca. Foi o que fiz. Este roteiro é tão bonito quanto o do dia anterior e passa por capelas, rios cristalinos e pousadas charmosas, priorizando as estradas de terra. Passei pela elegante Visconde de Mauá e por seus restaurantes e lojas mais “arrumadinhos” – é um lugar bem agradável, que eu já conhecia de outros roteiros. Segui para Maringá e cheguei a Maromba e à Cachoeira do Escorrega.

Precavido, eu usava calção de banho por baixo da roupa. A água estava deliciosamente fria e revigorante! Ali, conversei com uma figura local que “surfa” na cachoeira: o “Nem Maromba”, que também é motociclista. Ele desceu a cachoeira algumas vezes, para que eu pudesse fotografá-lo. A partir de Maromba, o destino é Aiuruoca – tudo por caminhos de terra!  Saindo de Maromba, no sentido de Visconde, passe por Maringá e siga em frente. Este trecho margeia o rio e tem cenários belíssimos à esquerda – merece uma sessão de fotos!  Há um trecho de asfalto até a ponte para o Vale do Acantilado e, depois, o percurso volta a ser por terra.

Passando por várias pousadas convidativas e por montanhas, siga a placa “Parque das Corredeiras” (uma saída curta à esquerda): lá está o Museu Duas Rodas, acervo particular que pode ser visitado mediante pagamento. Há muitas relíquias guardadas ali. As motos e bicicletas estão organizadas e têm descritivos – e apesar de estarem próximas demais umas das outras, a visita é interessante. Continuando pela estrada principal, chega-se à estrada que leva a Visconde de Mauá, à direita. Mas vá pela esquerda, voltando para Santo Antonio do Rio Grande. Em poucos quilômetros, você sairá à direita (a referência é o Laticínio Estrela do Norte).

Siga em frente, que ainda há muito chão até Aiuruoca! A vantagem é que as paisagens são infinitas – a cada curva surge um cenário incrível, decorado com araucárias imponentes. Realmente, é um caminho contemplativo! A estrada não dá trégua – é curva atrás de curva, com subidas, descidas, pedras e quase nenhum carro. Com os dias mais longos do horário de verão, cheguei a Aiuruoca por volta de 17h e, na praça central, me dirigi ao Posto de Informações Turísticas e, depois, tomei um açaí. Em seguida, fui procurar um canto para dormir. Enquanto eu tomava banho, a chuva voltou a cair, refrescando a noite.

O RETORNO

De Aiuruoca, o destino final era São Paulo. Mas eu ainda tinha o dia todo para rodar. Revi o roteiro por terra, conversei com moradores e fiz algumas alterações para ampliá-lo, somando outros 117 km de terra. Esta estrada acompanha o Rio Aiuruoca até Alagoa, que era a nossa próxima parada. Alagoa, que eu não conhecia, foi uma surpresa: é a região dos queijos! Conhecida como “a Terra do Queijo Parmesão”, fica no Circuito das Terras Altas da Mantiqueira e faz parte da Estrada Real. Além dos queijos (que são exportados e ganharam prêmios internacionais), há inúmeros atrativos, como cachoeiras, caminhadas e picos com mais de 2.000 metros. É um lugar a ser visitado.

Mas este roteiro foi feito para andar de moto – assim, prosseguimos! Um trilheiro de Alagoa me deu uma dica muito legal para continuar a evitar o “chão preto”: “Saindo da cidade, rode aproximadamente 7 km no asfalto e entre à direita, na terra. Mais 2 km de terra e você chegará à Capelinha. Entre à direita e suba”, disse-me o companheiro. Foram 4 km por um caminho sensacional e com um desnível de 40 metros – a subida parecia interminável. Em alguns pontos, devido à lama na época de chuvas, usei o piso “pé-de-moleque” para que fosse possível subir. Neste trecho, fique bem atento ao retrovisor e, quando possível, pare para apreciar a vista, que é uma verdadeira pintura!

Continue a subir até chegar à bifurcação – você estará rodando pelos Campos de Altitude. Lindo demais! Uma vez na bifurcação, você terá duas opções: à esquerda, seguirá em direção ao asfalto; à direita, rumará para o Parque Estadual da Serra do Papagaio. Eu não conhecia o parque e resolvi me aventurar. Contava com bastante autonomia e reparos para os pneus. Seguindo com cautela, estipulei que rodaria no máximo 10 km, para me manter em segurança. É uma estradinha muito agradável, com campos infinitos. 9 km depois, cheguei à sede do parque. Estava fechado, mas conversei com um guia sobre o local e fiquei entusiasmado para voltar ali e fazer o Trekking das Araucárias (uma caminhada de oito horas, com direito a banho de cachoeira e a uma paisagem incrível).

Iniciei o retorno até a bifurcação e segui em frente. Em 7 km de descida, cheguei ao asfalto novamente. Daquele ponto em diante, é asfalto até Itamonte, sempre com panoramas bonitos e estradas tranquilas. Já no rumo de casa, dei uma passadinha por Itanhandú e, depois, voltei para a Dutra no sentido de São Paulo.

A MOTO

A BMW GS 1200 é completa e enfrenta tudo com conforto e segurança. A eficiência e precisão dos freios foram fundamentais nas descidas com pedras. O conforto e a ótima ciclística evitaram o desgaste físico durante a pilotagem. Saber usar toda a eletrônica da moto é fundamental nesses “rolês”: onde desligar o ABS, o controle de tração, ajustar a suspensão, enfim… tudo está ao alcance dos dedos, mas é preciso saber usufruir dessa tecnologia embarcada para extrair o máximo proveito da máquina.

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