Em trabalho acadêmico, psicóloga, apaixonada por motos, fez um estudo sobre os efeitos causados pelo motociclismo no corpo humano

Texto e fotos: Carolina Kist

Prazer e liberdade

Qual o sentido do motociclismo? Por que o motociclismo? Quais são as sensações que esta atividade proporciona em um piloto? Qual o valor e as consequências psicológicas dessa atividade? Cada ser humano tem sua própria forma de buscar a felicidade, então, o que seria a felicidade para cada indivíduo? No âmbito do motociclismo, podemos perceber o quanto ele é algo gratificante para aqueles que o vivenciam no seu dia a dia, o quão prazeroso e libertador é aquela sensação de estar pilotando uma motocicleta, de estar participando abertamente de uma estrada e fazer parte de suas paisagens, aquela adrenalina de viver no limite, mas com responsabilidades, de colocar aquela agressividade, aquela pulsão no momento da pilotagem, de estar espairecendo, repousando a mente, sentindo o ar, o vento e a chuva. Sentir a liberdade no seu peito, e suspirando gratidão por estar experimentando aquele instante.

Segundo Nunes e Hutz (2014, p. 307), “Na perspectiva da psicologia, o lazer seria a satisfação de uma necessidade humana complexa, que é colocada em prática por meio de experiências que são individualmente definidas como prazerosas.” A vivência do lazer varia para cada pessoa, dependendo de seus gostos e recursos, de seu sistema de valores e aspirações. É uma área em que o indivíduo pode aperfeiçoar seu potencial, suas necessidades, contribuir para uma melhor qualidade de vida, tanto no caráter preventivo como terapêutico e como uma experiência psicológica enriquecedora, gerando benefícios físicos, psíquicos e sociais (NUNES; HUTZ, 2014).

Dentro do motociclismo, nota-se que as pessoas tem uma maior facilidade de se aproximar, tanto pelos desejos, pela identificação em comum, pela motocicleta e pelas sensações que ela pode proporcionar, como pela subjetividade, sentimentos e pensamentos de cada indivíduo que formam a identidade daquele grupo, o grupo do motociclismo, que independentemente das diferenças de cada um, do que trabalham, quanto ganham, que moto tem, o que importa é a paixão por aquele ideal, é poder compartilhar o prazer e a liberdade do motociclismo. Acredita-se que essa aproximação é tão recompensadora para eles porque são pessoas que estão felizes fazendo aquilo que amam fazer, que lhes faz sentir-se bem consigo mesmas e com os outros e esse contentamento transparece para quem está ao seu lado observando aquela emoção, transmitindo para essa outra pessoa um bem-estar e uma alegria que lhes faz querer presenciar aquilo ainda mais.

Sentimentos aflorados

Segundo Monteiro (2011), a subjetividade envolve nossos sentimentos e pensamentos mais pessoais, é a razão pelas quais nos apegamos a determinadas particularidades. Entretanto, nós vivemos em um contexto social, que dá significado às experiências que nós temos e adotamos em nossa identidade. Um grupo é formado a partir de algo em comum entre os integrantes, um interesse em um objeto, uma inclinação emocional semelhante. Essas emoções raramente atingíveis sob outra condição, constituindo uma experiência tão agradável que os mesmos se entregam às suas paixões perdendo o senso de limites e sendo arrastados por um impulso em comum (FREUD, 1920).

O lazer tem um significado inverso às obrigações do trabalho, sendo visto como um tempo livre, de não-trabalho, de diversão e recuperação das energias, fuga das tensões e esquecimento dos problemas da vida cotidiana. Já o trabalho é associado a tudo aquilo que é desagradável, até mesmo como uma punição, ou seja, o lazer proporciona tudo aquilo que somos privados no trabalho e em nossas obrigações da vida pessoal, promovendo o prazer, liberdade, alegria, autonomia, criatividade e realização (PEREIRA, BUENO, 1997; WERNECK, 1998).

O trabalho exige muito das pessoas, suas consequências podem gerar problemas físicos, emocionais e comportamentais. Os funcionários perdem sua produtividade, ficam ineficientes, agressivos, suas relações são prejudicadas e acabam ficando sem tempo para fazer aquilo que lhes é agradável. Eles precisam recuperar sua energia e diminuir o impacto da rotina e das pressões do dia-a-dia (NACARATO, 2009).

Fuga da realidade

Nesse contexto, acreditava-se que o motociclismo seria uma fuga deste evento estressor, o que também não deixa de ser, mas, podemos verificar que muitos motociclistas amam o que fazem em seus empregos, mesmo que gere momentos de exaustão e desconforto eles apreciam isso por terem liberdade para poder viajar nos finais de semana e fazer o que lhes é agradável e prazeroso, terem reconhecimento dentro de seu trabalho e/ou por realmente terem escolhido a profissão que sempre quiseram exercer.

Segundo Bueno (2010), liberdade se entende como ausência de impedimentos externos, dos quais reduzem o poder que um homem possui de fazer aquilo que o mesmo deseja, algo que não lhe aprisiona, liberdade de ir e vir. Vemos que por esses indivíduos terem seus momento de lazer, fazendo o que gostam, que é pilotar uma motocicleta, vivenciar todas aquelas sensações que a mesma proporciona e poder compartilhar essa paixão com outras pessoas, consequentemente, isso gera prazer também em outros aspectos de suas vidas, não somente no lazer, mas nos seus trabalhos e em suas relações sociais, mantendo o equilíbrio e tendo satisfação em seu tempo livre e em suas profissões.

Segundo Pereira e Bueno (1997), o lazer tem papel fundamental para o relaxamento e alívio dos problemas advindos do cotidiano, tanto profissional quanto pessoal. Quando se mantém um equilíbrio entre as exigências da sociedade e as necessidades pessoais, tendo descanso físico e mental, divertimento (de acordo com a escolha de cada individuo, opondo-se ao tédio e ao estresse) e desenvolvimento da personalidade (quando o mesmo é capaz de agir e pensar livre de condicionamentos), nota-se uma significativa melhoria na qualidade de vida e do serviço, em geral.

Experiência emocionante

Segundo Pimentel (2013), a aventura, na perspectiva do lazer, é uma experiência que busca emoções e sensações de risco frente ao inusitado e que dispõe de relações intersubjetivas com o intuído de adquirir prazer dessa interação. Essas práticas provocam momentos de divertimento mesmo quando relacionados com o medo e a adrenalina causados pelo desconhecido, aprimorando sentimentos de superação, novas habilidades físicas e cognitivas e fazendo com que estes indivíduos vivenciem o sabor da conquista após o término desta atividade. (MARCELLINO, 2003 apud VAROTO; SILVA, 2010).

Conforme Silva (2006), a  moto é considerada um veículo perigoso, pois o piloto não tem muita proteção em circunstâncias de quedas e colisões. Com os avanços tecnológicos, ela se tornou mais confortável e rápida, vista por muitos como sinônimo de liberdade, emoção, adrenalina, aventura e de desafios. Uma constante busca pela satisfação e pelo prazer de viver no limite, colocando seus ocupantes em primeiro lugar entre as vítimas dos acidentes de trânsito. “Há um aumento exponencial de descarga adrenérgica (…) comum em atividades de risco como os esportes radicais. Dessa forma, a prática regular desse esporte, pode conduzir (…) a uma melhora do condicionamento físico, por meio do aumento da capacidade cardiorrespiratória e do fortalecimento do sistema muscular. Além disso, diante às alterações hormonais provocadas pelo exercício, principalmente no que diz respeito à liberação de serotonina, é certo afirmar que (…) é uma atividade capaz de estabelecer mudanças positivas no padrão emocional, incluindo as sensações de relaxamento e bem-estar (PAIXÃO; NAZARI, 2010, p. 4).

Uma pesquisa realizada pelo Dr. Ryuta Kawashima constatou que o motociclismo proporciona um maior desenvolvimento na região cerebral pré-frontal do piloto. Área responsável pelo funcionamento da memória, tomada de decisão, reação e reconhecimento espacial. Esses pilotos também desfrutam de uma melhor concentração, habilidades cognitivas e possuem um menor índice de estresse e outras doenças (PROCTER,2009). A ansiedade é uma perturbação física, social e psicológica que dificulta o funcionamento diário do sujeito, como uma reação aos estímulos estressantes, sendo eles: tensão emocional, inquietação, medo, dificuldade de concentração, irritabilidade, tremores, dores musculares e ritmo cardíaco (MENDES, 2005).

Mas, segundo Mendes (2005), devemos pensar que a ansiedade, até certo ponto, pode ser útil para nos estimular. No sentido de que: imaginemos que um motociclista se depara com um obstáculo na estrada, do qual caso não for evitado poderá ocasionar um acidente rodoviário. Nesta situação, é normal que o piloto utilize de uma reação emergencial, o sistema simpático do sistema nervoso automático é ativado, produzindo um aumento na força sanguínea e, consequentemente, fazendo com que o músculo esquelético receba sangue com maior rapidez. Essa ativação fisiológica é representada por uma ansiedade estimulante, preparando o piloto para reagir frente a este obstáculo e superá-lo.

Pensando em um contexto psicanalítico, conforme Viana (2010), Freud, aborda a questão da ansiedade como sinal, que parte do pressuposto de que a ansiedade pode ser adaptativa a situações de perigo e de ameaça à sobrevivência, à integridade física e o bem-estar. E também, pode auxiliar na percepção de novas ocorrências dessas situações de risco, como forma de defesa, que está relacionada ao reflexo de fuga e ao instinto de autopreservação, que segundo Viana (2010, p. 172), recorrente aos argumentos de Freud, “possibilita a preparação para o perigo. Essa preparação é levada a cabo por meio de um aumento da atenção e da tensão motora, decorrendo daí a fuga do perigo ou a defesa ativa, a luta”.

A teoria freudiana compreende que a ansiedade se caracteriza como a retenção da descarga de energia psíquica, que acaba impedindo a sensação de satisfação. A ansiedade é, então, uma perturbação provocada pelo acúmulo de estímulos dessas energias que foram retidas e que precisam ser eliminadas. Assim, ocorre uma alteração na descarga desses estímulos, que escapam de forma transformada em ansiedade (VIANA, 2010; GOLDGRUP, 2010).

Livrando-se da dor

Para Queiroz (2012), a dor (ansiedade ou estresse) manifesta-se quando a excitação é interrompida, sendo relacionada com experiências de desprazer e repulsa, enquanto o gozo  está associado ao fruir, apreciar e ao prazer. O prazer é uma pequena excitação, o que diminui a tensão. Com isso, entende-se que a dor e o sofrimento são provocados por essa detenção do sentimento de gozo.

Nesse sentido, vendo o motociclismo como uma atividade que proporciona sensações de prazer, mesmo sendo uma atividade perigosa e que possa ocasionar a morte do piloto, ao ser praticada, a dor e a tensão diminuem, pois a excitação é desviada para essa atividade e não é mais interrompida, evitando o sofrimento do próprio individuo. Quando o indivíduo consegue realizar suas necessidades e desejos psicológicos sua saúde física e mental se eleva, tornando-o mais satisfeito e realizado, dessa forma, podemos notar essa qualidade de vida dentro do motociclismo, quando alguém experiência aquilo que gosta e lhe faz bem, quando se está aberto para a estrada e para qualquer coisa que aconteça, para qualquer experiência, pois são elas que fazem a nossa vida valer a pena!

VEJA TAMBÉM: Roteiro Aventura – Viagem de moto por Pirenópolis: Serras, cachoeiras e sabores.

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