O contato com o mundo das duas rodas aos 16 anos, seguida de uma desilusão amorosa, auto-exílio, reflexões e um despertar. Conheça a fascinante história de nossa leitora, desde o seu primeiro contato com o mundo da moto, aos 16 anos, até finalmente conseguir tornar-se motociclista. 

Minha primeira banda de rock foi meu bilhete só de ida para um universo sobre duas rodas, intenso, barulhento e apaixonante. Foi à bordo de uma Kombi branca que cheguei, aos 16 anos, no primeiro encontro motociclista da

minha vida, junto com cinco meninos magrelos de longos cabelos, guitarras nas costas e Creedence no repertório.

As motos reluziam sob um sol intenso; era em um dia lindo, de céu azul muito aberto. Um típico dia de inverno gaúcho em Cacequi, pequena cidade próxima a Santa Maria. À noite, do palco, cantei alguns sons conhecidos,compostos lá por 1969, e os garotos bonitos, as moças e os tiozões de colete de couro cantaram de volta pra mim.

Desse momento em diante, foram dois anos incríveis fazendo shows frequentes nos palcos de eventos motociclistas pelo Rio Grande afora, me aprofundando na cena, conhecendo pessoas e admirando motos.

Apesar das memórias que me fazem suspirar, de lá pra cá a vida deu voltas dignas de uma montanha-russa. Apósuma profunda frustração amorosa, entrei numa espiral existencial e neguei a música e o rock na minha vida,

tentando me desvencilhar também da paixão pelas motos e de tudo que me remetia à pessoa que havia meapresentado a esse universo; me vi evitando e duvidando das coisas que mais me emocionavam e que já eramparte de mim.

Sempre que eu trazia à tona o desejo ou a dúvida de ter moto e me envolver com a cena novamente, um bom amigomotociclista, que me acompanha desde os tempos da Kombi branca, dizia: “tudo tem seu tempo. E eu tenho certezaque a tua moto vai chegar”.

Foram anos de uma jornada profunda e intensa de auto-investigação e autoconhecimento. Mudei do Rio Grande doSul para São Paulo, e logo para a Turquia, onde por um tempo foquei na minha carreira como designer, profissão

que escolhi após desistir da graduação em Música. Em certa ocasião durante essa experiência no exterior, aoobservar a tela de navegação na poltrona do avião, tive uma epifania: eu e essas duzentas e tantas pessoas

sentadas nesta aeronave enorme não passamos, na verdade, de um pontinho no céu, um grãozinho de areia sobrevoando Istambul. Dessa percepção de existência frágil, minúscula e breve, surgiu a certeza de que eu precisava,

nesta única vida que tenho: abraçar sem medo as coisas que faziam meu olho brilhar.

De volta ao Brasil, permaneci algum tempo no meu estado e então voltei a São Paulo, lugar que tão bem merecebeu e que me acolhe há cinco anos. Sem me dar conta, dei o tal do “tempo ao tempo” para que as coisas seencaixassem no lugar ao qual pertenciam. Ao todo, somei 12 anos como motociclista-sem-moto, e foi percorrendoas estradas dentro de mim (e ouvindo alguns velhos discos de vinil), que cheguei às respostas capazes depreencher as lacunas que iriam me reconectar com as coisas que eu mais gostava.

Aí uma velha chama reacendeu – e muito mais forte. Me senti recomposta, revigorada e grata pelo tempo que haviapassado e, com ele, a maturidade que chegava.

Foto sem título

Com 28 anos finalmente superei as barreiras internas e decidi tirar minha carta, passando na prova na primeiratentativa. Debaixo de uma chuva gelada e fina, desci da moto tremendo de alegria e de frio.

Levei mais dois anos atécomprar minha primeira moto, uma Chopper Road 150cc, zerinho, que chegou na minha casa reluzindo como asmotos que eu havia admirado tanto no meu primeiro evento motociclista. Que êxtase! O sonho e o desejo de sentir ovento na cara se tornando realidade, onde até mesmo a primeira multa, poucos meses depois, foi motivo de festa!

Em maio de 2020 (neste mês em que escrevo este texto à Revista Moto Adventure!) celebro meu primeiro ano como motociclista – o com – moto e os desafios e novos objetivos nãoparam! Decidi me matricular num curso de mecânica, estou planejando a customização da minha moto e me preparo para aprimeira viagem longa, de São Paulo ao Rio Grande do Sul.

Mesmo com tantos planos e entusiasmo com o futuro, toda vez que cruzo com uma Kombi branca me transporto para aquela primeiríssima tarde ensolarada de rock’nroll e motocicletas, e isso me serve de lembrete que preciso

ser paciente para que as coisas cheguem no tempo certo, agora sabendo que, com certeza, tudo tem seu tempo.

Dride é designer, cantora e compositora, pós-graduanda em Teoria, História e Prática de Rock pela Faculdade Santa Marcelina em São Paulo. Em seus projetos, investiga as relações entre design gráfico e rock’n roll, cria identidades visuais para músicos, bandas e negócios da música, e organiza o evento “Mina sem Banda”, focado em aumentar a presença das mulheres nas bandas e nos palcos de festivais.

Faz parte do coletivo global The Litas, que une mulheres apaixonadas por motocicletas, e não vê a hora de trocar o guidão da sua Chopper Road.

Deixe uma resposta