Viagem de moto pela Carretera Austral: Carretera Chilena

Aventureiro saiu de Blumenau (SC) a bordo de uma Transalp com destino exclusivo até a Carretera Austral, famoso roteiro do Chile

Texto: Douglas Seiler
Fotos: Divulgação

Carretera Austral

O fotógrafo Douglas Seiler, de 33 anos, fez uma viagem e tanto a bordo de uma Honda Transalp 700: saiu de Blumenau, em Santa Catarina, com destino à Carretera Austral, no Chile. Confira abaixo, nas palavras do próprio aventureiro, como foi essa saga.

Relato do viajante

“Certamente você já ouviu falar que a Carretera Austral é uma estrada fascinante. E posso assegurar isso é absolutamente correto. Há alguns anos, encontrei algumas fotos dessa estrada na internet e fiquei fascinado com o lugar. Dali em diante, comecei a planejar uma viagem para Ushuaia e, no caminho, iríamos percorrer uma parte dessa estrada, e esse é o grande erro da maioria das pessoas que passam por lá. Ela, em sua totalidade, é extremamente bonita, mas ao sul da cidade de Cochrane possui algo diferente: as paisagens parecem menos tocadas pelo homem. A estrada é mais estreita e a sensação de inóspito parece ficar mais evidente. Desde aquela viagem, em 2010, ficou aquele sentimento de que essa estrada merecia um roteiro exclusivo, só dela.

Após alguns anos, comecei a ler notícias de que o governo do Chile estaria asfaltando toda a carretera e que, até o final de 2016, já seriam em torno de 500 quilômetros de asfalto. Como apreciador da prática off-road e de lugares inóspitos, decidi que iria o quanto antes percorrer os cerca de 1.300 quilômetros da Carretera Austral.

Saí de Blumenau (SC) no dia 21 de setembro e optei pelo caminho mais curto até chegar ao Paso Roballos, fronteira entre Argentina e Chile. Escolhi fazer tocadas mais longas e, assim, entrar na Carretera Austral no dia 26, data do meu aniversário, tudo conforme o planejado. Chego à cidade de Perito Moreno, na Argentina e, até então, o clima estava difícil: vento e frio descendo pela Ruta 3. No dia 26 amanheceu um dia gelado de inverno, porém sem nuvens e sem vento, para minha surpresa.

Sigo até a cidade de Bajo Caracoles para fazer o abastecimento da moto, apenas por garantia. O rípio do lado argentino está em condições razoáveis e de maneira tranquila, então segui até a aduana e fiz o ingresso no Chile. Ainda conversando com o carabinero, pergunto sobre o estado da estrada que seguia até Cochrane, no Chile, e ele prontamente responde: “Agora você está no Chile, aqui a estrada está sempre perfeita!”. Ficamos ali mais alguns minutos conversando e segui viagem. Como prometido, a estrada virou um tapete, sendo fácil imprimir velocidades superiores a 80 km/h. Mas, com aquela paisagem estonteante, resolvo tocar mais devagar e apreciar cada curva.

Chile à vista

Chego a Cochrane cedo e vou em busca de um hotel. Pela época do ano, encontro muito fácil uma pousada familiar no valor de R$ 60,00. No dia seguinte desvio o caminho e vou até o lago Cochrane. Marquei um ponto no GPS a 14 quilômetros da cidade, mas esse ponto ficava no alto da colina e, como eu queria chegar mais próximo da água, resolvo continuar até chegar mais perto. Rodei 40 quilômetros até o final da estrada, fascinado com a mudança de paisagem a cada curva. E assim se foi a manhã, voltei até o centro e abasteci – aliás, norma em minhas viagens, tem posto, abastece. O próximo destino seria Villa O’higgins. Nesse trajeto é preciso fazer uma travessia de balsa e, nessa época do ano, ela funciona partindo de Puerto Yungay até Rio Bravo apenas em dois horários, às 12h e às 15h. Como não conseguiria chegar até lá antes das 15h, segui em direção a Caleta Tortel. Essa cidade é muito interessante, e está fixada no costão de um braço de mar. A cidade não possui ruas, apenas passarelas de palafitas e, para visitá-la, é preciso disposição para vencer a quantidade de degraus para chegar às passarelas.

No caminho paro em outra laguna, a Laguna Esmeralda, que acredito levar esse nome em razão da cor da sua água. Apesar de não haver vento naquele dia, a árvore à beira do lago mostra que o vento castiga a região grande parte do tempo. Difícil querer progredir rápido nessa estrada. Muitas paradas e, depois, chego à Caleta Tortel.

Nessa noite me hospedo novamente em uma pousada familiar ao custo de R$ 60,00, mas dessa vez sou apenas eu na casa. Durante a noite a temperatura despenca e amanhece tudo coberto por uma grossa geada. Muito bonito, entretanto, a geada em cima das tábuas deixou as escadarias lisas e fui me equilibrando no corrimão até subir na moto. Apesar do frio a moto pega com certa facilidade, foram 120 quilômetros até Caleta Tortel e seriam mais 120 até Villa O’higgins.

Em Caleta Tortel há gasolina para vender na loja de gás de cozinha, não é posto, o dono deve ter uma bomba de gasolina para vender. Uma moto com autonomia inferior a 300 km estaria com um problema, pois o dono havia saído e só voltaria no final do dia. Tudo certo, sigo até Puerto Yungay e aguardo para fazer a travessia. No outro lado serão mais 100 quilômetros de uma estrada absurdamente bonita, e acredito que tudo tenha ficado ainda melhor pela sorte que tive com o tempo. Com chuva, os nevoeiros cobrem tudo e não é possível ver quase nada. Muitas paradas para fotos e vídeos até o final da Ruta 7 (Carretera Austral). Cheguei à Villa O’higgins no final de tarde e fui para uma hospedagem, contando os minutos de voltar por aquele caminho.

Pneu furado

Na manhã seguinte tenho o primeiro imprevisto da viagem: pneu furado. Acredito que, por erro meu, baixei um pouco a calibragem para a moto ficar melhor de conduzir e, empolgado pelo bom estado da estrada, acabei acelerando um pouco a mais e acertei uma pedra. Senti a pancada no guidão, mas continuei acelerando, achando que foi apenas a pancada, logo comecei a sentir o guidão balançar e, quando parei para verificar, o pneu estava murchando. Peguei a bomba, dei mais uma inflada nele e toquei. Eu estava a 10 km da balsa e, se eu parasse para trocar a câmara, perderia a embarcação e só conseguiria partir no dia seguinte. Nos últimos 2 km rodei com ele desencaixado do aro, e segui devagar até a balsa. Após a travessia de 45 minutos desembarquei a moto, desamarrei a bagagem, troquei a câmara de ar e ainda consegui usar o compressor do barco para encher o pneu. Problema resolvido! Segui até Cochrane, na mesma pousada que fiquei na ida.

Debaixo de chuva

Agora o destino é Puerto Rio Tranquilo, para visitar as Capillas de Mármol. Esse ponto turístico está a 130 km de Cochrane. O clima está mais com cara de Carretera Austral, amanheceu nublado e logo começou a chover. Sigo debaixo de chuva até Puerto Tranquilo e, antes do meio dia, já estou instalado no hotel. Tento passar o tempo, verificando o óleo, corrente, essas coisas. Chovia o tempo todo e o máximo que faço nesse dia é ir até o posto de gasolina tomar um café. Logo voltei para o hotel e me junto à família da dona do hotel para assistir TV. Eles assistiam àqueles programas que mostram vídeos engraçados de internet, foi divertido ver que não importa onde você está, as piadas são sempre as mesmas. Decido tentar dormir cedo e, antes, observo a previsão do tempo.

O site informa que o dia seguinte seria de sol, mas aquela chuva parecia daquelas que ficariam por dias. Após uma noite muito longa, desperto às 6h e a primeira coisa que escuto é o barulho de chuva na telha de zinco. Logo penso: a previsão do tempo errou. Decido então ficar na cama até as 7h e desço para tomar café e arrumar minhas coisas, pois, com o tempo ruim, não iria visitar as Capillas de Mármol. Para minha surpresa o tempo resolve abrir, sinto aquele ar mais seco e o céu começa a clarear. Deixo tudo como está na moto e vou atrás do passeio de barco que leva até as capelas. Durante o trajeto até o local de visitação, o tempo limpa e o passeio proporciona muitas fotos, uma melhor que a outra.

De volta à terra firme, já estou satisfeito com a viagem até ali. O tempo estava perfeito, apesar do frio acentuado, segui ao norte já sem roteiro, decidido apenas a curtir cada quilômetro desse lugar.

Estrada asfaltada

Começo a perceber o avanço do asfalto e, 40 km antes de Villa Cerro Castillo, o trecho está todo alargado e com a brita espalhada, pronto para receber o asfalto. Lembro que nesse trecho, em 2010, fiz uma foto muito bonita de quando finalmente saímos da chuva, foi épico depois de vários dias com chuva e frio ver o sol. Na foto é possível perceber que ainda há água nas poças. Hoje, o local está tão diferente por conta das obras que não o reconheci. De Cerro Castillo sigo por asfalto até Coihaique, e faço um trecho da Austral, que acredito ter sido um dos últimos a cruzar ela no rípio original. Normalmente se vai de Coihaique para Puerto Aisen, mas eu segui pela estrada de rípio que passa por Villa Ortega. Essa parte da Austral é de apenas 40 km e já estava todo marcado com pedaços de fita, onde seria o meio da estrada asfaltada. Piloto aquele caminho com certo saudosismo de que jamais o verei novamente.

Chego à cidade de Villa Mañihuales e fico surpreso com o avanço da cidade, que deve ter pelo menos triplicado de tamanho desde 2010, quando finalizavam a obra de asfaltamento. Daqui, serão mais 90 km de asfalto até o trevo de Puerto Cisne e, a partir desse ponto, são vários trechos de asfalto e rípio. Rípio é modo de falar, porque são estradas prontas para a camada asfáltica, às vezes finas e às vezes grossas, brita que deixa um pouco complicado de conduzir a moto.

Fui alertado pela dona do hotel que em Puyuhuapi havia caído uma grande barreira e não tinha certeza se conseguiria passar. Agradeço a informação e sigo mesmo assim. Resolvo me antecipar e acreditar na previsão, que dizia que haveria tempo bom por mais dois dias. Sendo assim, alguns lugares eu teria que deixar para trás, um deles é o Ventisquero Colgante, um glaciar visível da estrada, mas é um parque e, além de um lugar legal para acampar, é possível fazer um traking próximo a ele.

Sigo até La Junta por um asfalto novo, ali falta menos de 400 km até Puerto Montt, onde finalizaria meu roteiro. Mesmo rodando em velocidades baixas, a viagem rende e chego até Caleta Gonzalo, na verdade uns 15 km antes, pois no dia seguinte iniciaria três travessias de balsa até Puerto Montt. Decido acampar pela terceira vez na viagem e, mais uma vez, essa região do Chile surpreende: há dois campings públicos gratuitos, com estrutura de chuveiro, pia para lavar louça e roupa, quiosque e área para montar a barraca com grama, lixeiras, pátio com brita, tudo muito limpo, grama aparada, nenhuma pichação, tudo lá para uso comum de todos.

Acordo às 6h, desarmo o acampamento e saio ainda à noite. Chego às 7h e fico aguardando até as 8h30 para fazer a primeira travessia, depois seriam mais 10 km de deslocamento por terra, e então a segunda balsa de Leptepú a Hornopirém (4 horas de travessia), novo deslocamento por terra de mais 70 km e a terceira balsa de 45 minutos até Puerto Montt. Como previsto, começa a chover e sinto que tomei a decisão certa. Sigo abaixo de muita chuva até a cidade de Osorno para passar a noite.

Neve na volta para casa

Achando que tudo havia sido mais que perfeito, apenas um dia de chuva, deixo a cidade de Osorno, debaixo de muita água, mas muito feliz e nem ligo para tal situação, e ainda dizendo: foi tudo “tão animal” que não me importo se chover até em casa. Assim, segui para o Paso Cardenal Antonio Samoré e tive mais um grande presente, como se fosse para fechar a viagem com chave de ouro: a temperatura começa a cair e a chuva congela e logo em seguida começa a nevar muito forte. Pela primeira vez eu estava vendo o fenômeno incomum a nós brasileiros. Paro a moto, pego a câmera e começo a tirar fotos, pular, quase não acreditando naquele momento. Depois de algum tempo ali fotografando, sigo rumo a casa, ainda seriam mais seis dias até estar em minha residência novamente.

Após quase 10 mil quilômetros, chego a Blumenau novamente. Nesses 18 dias de viagem, tive a certeza de que tomei a decisão certa de ir e fazer somente a Austral, de não agregar mais lugares não tendo tempo, fazer as coisas com calma me deu a certeza de que tudo iria dar certo. Para mim é uma pena que estejam pavimentando a Austral, pois gosto de lugares daquele jeito, onde o tempo parece andar devagar. Talvez seja preciso o asfalto para que outras pessoas possam chegar até lá, mas estou feliz de ter percorrido ela durante esse processo, de ver sua transformação. Mesmo com o asfalto, tenho certeza que ela continuará sendo a estrada mais bonita da América do Sul.

VEJA TAMBÉM: On The Road – Aventura sul-americana – Bolívia, Chile e Peru.

DEIXE UMA RESPOSTA