Viagem de moto pelas Lagoas do Peixe e do Pato – Parte1

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Praia no Parque Nacional da Lagoa do Peixe

No sul do Brasil, o motociclista Rodrigo Tristão de Almeida conheceu as Lagoas do Peixe e do Pato. Mas acima de tudo vivenciou verdadeiras amizades

Texto e fotos: Rodrigo Octávio Tristão de Almeida

“Eram duas horas da tarde. O sol forte castigava. Depois de cavar com as mãos a areia da praia por uma hora e meia, não consegui tirar a moto do atoleiro. Olhei para o lado e percebi que a maré não tardaria a subir. Estava sozinho, a quilômetros e quilômetros de qualquer referência ou pessoa. Decidi correr a pé o caminho de volta para sair do Parque Nacional da Lagoa do Peixe, preparado para vencer uma distância de quase 20 km. Se não encontrasse ajuda logo, minha moto simplesmente ia desaparecer, engolida pelo mar, enterrada numa praia selvagem, cuja extensão se perdia no horizonte.” Foi assim que o motociclista e colaborador de Moto Adventure, Rodrigo Tristão de Almeida, começou seu relato sobre uma viagem rumo ao sul do Brasil. No entanto, muita coisa aconteceu ao longo desta viagem de Rodrigo. Veja abaixo o relato nas palavras do próprio motociclista.

O ROTEIRO

É meu costume passar os olhos no mapa em busca de roteiros pouco conhecidos, sobretudo aqueles que permeiam Parques Nacionais e a natureza mais selvagem. Foi dessa forma que me encantei com o extremo sul do Brasil, especialmente um pedaço de terra que parece uma ilha, rodeada pelo Oceano Atlântico, a Lagoa do Peixe e a Lagoa dos Patos.

O Parque Nacional da Lagoa do Peixe foi criado em 1986 e não tem estrutura alguma. Seu atrativo é uma grande lagoa que periodicamente se comunica com o mar, permitindo a entrada de peixes e crustáceos, que servem de alimento fácil para as aves. Por essa razão é considerado um dos principais sítios migratórios de aves da américa latina.

Não pensei muito. A ânsia de me lançar na imensidão do mundo, de sentir o vento bater no peito e a vontade de desfrutar aquela sensação inebriante da mais pura liberdade me empurraram para uma aventura de moto inesquecível. Decidi cair na estrada, entrando no universo de uma viagem que me reservaria episódios com grandes emoções.

No caminho para a cidade de Tavares, no Rio Grande do Sul, principal acesso ao Parque Nacional da Lagoa do Peixe, eu aproveitaria para conhecer lugares deslumbrantes, podendo ver cachoeiras gigantes, paredões de quase um quilômetro de altura, cânions, lagoas e praias desertas. Era um prato cheio. Utilizei uma Yamaha XT 660z Teneré, perfeita para roteiros longos com trechos de terra. É uma moto que me dava bastante confiança, pois já tinha ido com ela para o Maranhão, na Chapada das Mesas, e ela mostrou que é perfeita para esse tipo de empreitada. A quilometragem total era estimada em 3.500 Km.

SÃO PAULO, PARANÁ E SANTA CATARINA

No primeiro dia de minha viagem saí de Descalvado, no interior de São Paulo, e fui em direção a Palmeira, no Paraná, percorrendo 600 Km. Escolhi um roteiro que desviava de Curitiba, para evitar o trânsito e o tumulto natural dos grandes centros urbanos. Nesse primeiro dia usei todo o meu equipamento de frio. Fazia cerca de 8 graus. Mas a sensação térmica, na moto, é bem mais intensa.

No segundo dia, rodei mais 460 Km e cheguei a Urubici, em Santa Catarina. Aproveitei para pilotar em alguns lugares míticos da região, que fazem a alegria de praticamente todos os motociclistas que desbravam aquelas bandas. Primeiro fui para a Serra do Corvo Branco, fincada no meio de duas paredes gigantescas, com curvas pequenas de cotovelo a poucos metros uma da outra, e com trechos em terra que lhe dão um sabor especial.

Aproveitei um dia para subir ao Parque Nacional de São Joaquim e vislumbrar, em altitude e frio, a famosa Pedra Furada. Depois conheci pinturas rupestres, feitas por grupos que habitaram a região há cerca de 3.000 anos. No período da tarde me desloquei para a retumbante cachoeira do Avencal, cravada num semicírculo de pedra de mais ou menos cem metros de altura. Todos os cenários são lindos e a cidade é bastante simpática.

MAIS AO SUL

Por fim, era hora de dar um passo adiante em direção ao sul.

Saí de Urubici rumo à cidade de Bom Jardim da Serra. Desci e depois subi a Serra do Rio do Rastro, outro mito no universo do motociclismo. Alguns a consideram uma das estradas mais espetaculares do mundo.

Ali vi que minha alegria estava só começando. Depois de curtir as curvas intermináveis da Serra do Rio do Rastro, saí de Bom Jardim no sentido de São José dos Ausentes (RS), num trecho de terra de 84 km. A sensação de paz começava a tomar conta de mim, quando comecei a passar por trechos ladeados por vegetação, serras íngremes e rios. Era muito prazeroso cruzá-los em pontes bastante rústicas. Eu ficava longo tempo sem contato com outras pessoas ou veículos. Percebi que minha moto era feita exatamente para aquele tipo de terreno.  A estabilidade e a segurança que ela oferece no off-road são notáveis.

Almocei em São José dos Ausentes e depois segui para Cambará do Sul em nova estrada de terra, desta vez de 40 Km. Esse trajeto, de Bom Jardim da Serra a Cambará do Sul, é imperdível para quem curte natureza e estrada de terra. O caminho tem trechos com algumas pedras, mas está em excelentes condições. Oferece oportunidade de contato intenso com um ambiente natural e restaurador. Cambará do Sul é uma cidade com energia especial. Tem cerca de 7.000 habitantes. Além de ser pequenina e muito bonita, as pessoas são acolhedoras e prestativas. Existem algumas pousadas com chalezinhos decorados com tanto bom gosto, que dá vontade de ficar por ali vários dias.

As atrações naturais são cinematográficas. Os cenários dos cânions arrebatam o fôlego e nos fazem ficar quietos em contemplação estupefata.

No primeiro dia na cidade, decidi conhecer o cânion Fortaleza, dentro do Parque Nacional da Serra Geral. O cânion foi batizado de Fortaleza, porque suas paredes de rocha lembram muralhas. Peguei uma estrada de aproximadamente 25 km, incluindo um trecho de mais ou menos 10 Km de terra até a entrada do Parque. Depois são mais uns 6 Km de terra até a proximidade do cânion.

GRANDIOSIDADE

Eu já havia visto muitas fotos dessa região, mas elas, de fato, são incapazes de dimensionar a grandiosidade daquelas escarpas e vales. Além de percorrer a margem do cânion, fiz uma trilha a pé, de 2 km, para a cachoeira do Tigre Preto. Aproveitei para fazer um lanche, admirando a água deslizar por algumas rochas até, finalmente, despencar ao longo de 400 metros de altura.

Voltei para Cambará e depois saí para jantar. Há algumas opções para comer, mas a cidade não é, de forma alguma, um celeiro gastronômico. Na manhã seguinte me dirigi ao Parque Nacional de Aparados da Serra, por uma estrada de 18 km, com um trecho de terra e cascalhos em boas condições. O atrativo do Parque é o cânion Itaimbezinho, cujas paredes possuem 720 metros de altura. As paredes do Cânion são separadas por um espaço de 600 metros. O corredor formado por elas tem 5,8 Km de extensão. É para ele que se vertem inúmeras cachoeiras e é nele que o rio do Boi serpenteia em direção ao oceano. O cânion Fortaleza é mais selvagem, pois não tem tanta estrutura como o Itaimbezinho. Como eu gosto das coisas mais naturais, preferi o Fortaleza. Mas, em termos de beleza natural, é difícil dizer qual é o mais bonito.

No fim do dia, o dono da pousada onde me hospedei sugeriu um passeio à cachoeira do Venâncio. Disse que era linda e eu certamente ia gostar muito. Nunca tinha ouvido falar dessa cachoeira, mas como eu tinha gostado muito da região, decidi ficar mais um dia para conhecê-la.

Parti um pouco depois do amanhecer, pegando a estrada para a cidade vizinha, chamada Jaquirana. Até o trevo para Jaquirana, a estrada é de asfalto. Depois, começa um trecho de terra em boas condições. No total, são 23 km até a entrada da propriedade onde fica a cachoeira.

Foi uma surpresa radical. Não esperava que pudesse conhecer uma cachoeira tão linda, da qual nunca tivesse ouvido falar. Na verdade, são várias quedas d´água alimentadas pelo Rio Camisas. Percorre-se uma trilha a pé no meio do mato, com algumas placas de advertência para a presença de serpentes. A gente fica meio cismado, redobra a atenção onde pisa, mas a recompensa vale a pena. A seguir retornei para a cidade. Foram momentos de paz extrema, em paisagens grandiosas, numa cidade que me fez muito bem.

NOVOS RUMOS

No outro dia acordei cedo. A previsão do tempo indicava chuva na parte da tarde em Cambará do Sul. Já em Tavares, meu próximo destino, a chuva estava prevista para a parte da manhã. Resolvi sair por volta de 10h00, já que a distância a ser percorrida era de apenas 360 km. Desta forma, eu escaparia da chuva. Passei uma água na moto, para tirar o grosso do pó das estradas de terra, chequei a calibragem e lubrifiquei a corrente.

Fui com calma, curtindo o passeio. Rumei no sentido da cidade de Tainhas e depois desci a Serra na direção do litoral. Foi um dia tranquilo. Passei pela cidade de Osório, que me chamou a atenção pela utilização da energia do vento. Lá fica o maior parque eólico da América Latina, com 75 aerogeradores.

Depois de Osório, comecei a entrar no território que, dias antes, havia me chamado a atenção nos mapas. Eu ingressava num espaço de terra emoldurado pelo Oceano Atlântico, de um lado, e pela Lagoa dos Patos, do outro. Logo eu chegaria a Tavares, cidade que detém a maioria do território do Parque Nacional da Lagoa do Peixe. A estrada tem alguns trechos bons, mas o asfalto é mal conservado em boa parte, de forma que somos obrigados, com frequência, a nos desviar de buracos e irregularidades.

Tavares é quase uma vila. Tem aproximadamente 6.000 habitantes. Há algumas opções de hospedagem e poucos lugares para comer. Mas dá para se virar bem. Fiquei numa pousada confortável, com bom café da manhã.

O dia seguinte começou com chuva, prosseguiu com chuva e terminou com chuva. Aproveitei para descansar, ler um pouco e, nos interregnos de mansidão no tempo, dar umas caminhadas. Todos as pessoas para quem perguntei sobre as condições das estradas, me disseram que eu não precisava me preocupar, porque minha moto era boa e ia encarar bem.

Uma das lições que aprendi dessa vez é que as pessoas, em geral, não têm noção nenhuma do que é uma estrada boa para moto.

Confira a Parte 2 do roteiro.

*Matéria publicada na edição #170 da revista Moto Adventure.

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